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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

27
Dez15

DIY - Diário de leituras

É o mesmo com as agendas, nada me satisfaz completamente, por isso decidi que o melhor seria fazer eu mesma uma versão de um diário de leituras que eu pudesse experimentar e editar como me aprouvesse.

 

 A capa foi feita com dois marcadores especiais: um que me foi oferecido e que tem uma dedicatória no verso (por isso é uma capa transparente e outro que é uma lembrança de livros não lidos. Utilizar marcadores de livros como encadernação é uma excelente forma de os preservar sem que se tornem uma tralha.

 

Encadernei tudo utilizando a técnica demonstrada neste vídeo. Desta forma, em qualquer altura posso desmontar o livro e voltar a encadernar com outras páginas, agregando secções, etc...

 

Fiz um modelo de página (diariodeleituras.pub), claramente inspirado nos dois que existem no mercado (BertrandMoleskine). Porém, um ano de experiência já me trouxe várias ideias de melhoria. Mas o diário ainda terá mais um ano de páginas, por isso é algo que vou adiar.

 

Mas não tenho apenas a página base, tenho listas de livros que imprimi, registos de recomendações em páginas que deixei em branco e até recortes de revistas ou jornais de algo que me suscitou curiosidade. 

 

24
Dez15

Guarani - José de Alencar

guarani.JPG

 

 

José de Alencar (1829-1877) é um autor de referência da literatura brasileira, do período romântico. Segundo a Claire Scorzi, é um autor lido na escola. 

 

Os críticos referem que a obra de José de Alencar que se divide por três grupos: romance histórico com a temática do indianismo, o romance urbano muito em torno da temática do amor e da situação social e familiar da mulher e o romance regionalista representativo das diferentes regiões que dividiam o Brasil. 

 

Guarani é "o mito do bom selvagem, da pureza do americano em contraste com a dureza e a ambição desenfreada e sem escrúpulos do branco europeu".

 

A história situa-se no interior do Brasil, na segunda metade do séc. XVI. D. António de Mariz é um fidalgo português, movido por um código de honra da cavalaria. Tem uma filha angelical, Cecília, amada/disputada/adorada por três homens, cujos amores irão determinar o destino da história. 

Um desses homens é Peri que adora Cecília, como a personificação da virgem Maria na Terra e que tudo faz para a agradar e proteger. Cecília, uma jovem de 16 anos que não conhece a vida para além do domínio da casa onde vive, trata Peri como um animal de estimação. 

 

O segundo homem, D. Álvaro, ama Cecília e entretém a ideia de casar com esta, ainda por cima com o assentimento de seu pai. É amado por Isabel, prima de Cecília e uma mestiça que se suspeitava ser filha ilegítima de D. António e uma índia.

 

O terceiro, Loredano, um aventureiro que procura um tesouro escondido nas terras brasileiras e planeia matar toda a família, para poder possuir Cecília. 

 

Como se não bastasse este quarteto amoroso, temos ainda o filho de D. António que mata acidentalmente uma índia, o que determina o desejo de vingança de uma tribo violenta que irá invadir a casa senhorial.

 

Confesso que este não foi um dos meus livros preferidos, embora deseje continuar a ler as obras do autor. Embora destaque a superioridade intelectual do índio, este está sempre subjugado aos seus sentimentos por Cecília e esta é pouco mais que uma adolescente reduzida a ser bondosa, mas mimada e pouco consciente dos seus actos.

 

- Mas tu não és escravo!... - respondeu Cecília com um gesto de contrariedade-; tu és um amigo sincero e dedicado. Duas vezes me salvaste a vida; fazes impossíveis para me veres contente e satisfeita; todos os dias te arriscas a morrer por minha causa.

O índio sorriu.

- Que queres que Peri faça de sua vida, senhora?

- Quero que estime sua senhora e lhe obedeça, e aprenda o que ela lhe ensinar, para ser um cavalheiro como meu irmão D. Diogo e o Sr. Álvaro.

 

E num autor romântico não poderia faltar o tratamento da mulher tão característico: a angelical loura e o pecado original que pesa sobre todas as mulheres:

 Cecília era uma menina ingénua e inocente, que nem sequer tinha consciência do seu poder e do encanto de sua casta beleza; mas era filha de Eva, e não podia se eximir de um quase nada de vaidade.

 

Isto é um livro de aventuras. O que me impressionou no livro foi a imaginação do autor para criar situações.

Peri mostra-se sobre humano e genial. O plano dele para, sozinho e sem armas, matar centenas de índios da tribo que tenta tomar de assalto a casa senhorial é absolutamente brilhante e prendeu-me, página após página.

 

É pelo conjunto que desejo voltar a José de Alencar.

 

 

 

Obra em domínio público, disponível em pdf no Portal Domínio Público, do Governo Brasileiro.

19
Dez15

Boutade

Numa entrevista recentemente publicada na Visão (cuja leitura recomendo, na minha modesta opinião), António Lobo Antunes lamentava-se pela polémica que surgiu a propósito de um comentário seu relativamente a Fernando Pessoa:

 

Já atingiu um patamar em que pode escrever como bem entender e até dizer o que lhe apetece, sem se preocupar com as consequências?
Está a pensar no Fernando Pessoa e de eu ter dito que ele não fodia?

Por exemplo.
Isto está cheio de patetas, as perguntas nunca são bem aquelas e as respostas também nunca são bem aquelas. Primeiro era uma boutade. Foi num almoço, estávamos a gozar, e de facto eu acho mesmo que ele teria sido melhor poeta se tivesse feito amor… Como se pode viver sem fazer amor ? Não entendo. Mas só um palerma é que me vai atacar por eu dizer isso. Mas não. Não houve medíocre que não viesse morder. Não gosto da Mensagem, é evidente, como acho que o Livro do Desassossego é um conjunto de banalidades e lugares-comuns. Não sei para que estamos a falar do Fernando Pessoa, coitado, não tem culpa nenhuma… Isto é para dar matéria aos idiotas, para me virem morder os calcanhares, não chegam mais alto…

 

Não fosse o comentário, julgo que não teria percebido a amplitude do poema seguinte. Não é deliciosamente juvenil? 

 

Dá a surpresa de ser

Dá a surpresa de ser
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.


Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.


E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.


Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

 

Fernando Pessoa in Poemas da minha vida de Miguel Vieira

 

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