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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

27
Abr16

Exposição "Tesouros bibliográficos (séc. x - xvi): A arte e o génio ao serviço do poder"

No Palacio da Bolsa do Porto, até 1 de Maio

 

Esta exposição é uma viagem por sete séculos de história através das principais joias da cartografia portuguesa da época dos descobrimentos e dos manuscritos iluminados mais relevantes do Património histórico europeu que atualmente se encontram nos arquivos e bibliotecas mais importantes do mundo.

A sua temática abarca áreas tão diversas como a cartografia —a «ciência dos príncipes»—, a religião e a espiritualidade, a medicina, a biologia, a alquimia, a sexualidade, etc. 

 

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26
Abr16

...

Dizes que é só um bocado de vida, mas confiaste-mo como se quisesses que eu retirasse dele algum significado. Ninguém se contenta com os factos. As peripécias têm de encaixar e de formar um todo-maior-do-que-as-partes. O contrário seria demasiado triste.

 

Em Coimbra, por Alexandre Andrade

in revista Somos Livros/Bertrand, p. 18-19

 

Blog do autor: http://umblogsobrekleist.blogspot.pt

25
Abr16

As vítimas de Salazar

 

Já referi que tenho procurado livros de não ficção que não sejam um snooze fest para não académicos, que parece ser o foco deste género de publicações em Portugal. 

 

Vítimas de Salazar, é um livro a três mãos: João Madeira, Luís Farinha e Irene Flunser Pimentel. A estrutura está muito bem conseguida, com o livro dividido em 17 capítulos, por exemplo:

1. A censura

2. Escutas telefónicas e violações de correio

3. Os informadores da PIDE-DGS

4. A tortura

5. Julgamentos políticos

...

 

Reúnem-se aqui narrativas históricas de violência e de resistência. Olham-se os aparelhos repressivos do Estado Novo, o seu funcionamento, a sua acção, mas sem nunca perder de vista os destinatários directos, imediatos - gerações de homens e mulheres que sentiram a violência do regime, sofrendo-a, mas também enfrentando-a, a seu modo e como puderam, tantas vezes de forma corajosa e até heróica, com custos de toda a sorte na própria vida e com a própria vida. São vítimas se Salazar neste preciso sentido.

 

Apesar de o livro ter como objectivo principal dar voz às vítimas do Estado Novo, a verdade é senti que o livro contextualizava através de factos históricos na sua forma tradicional, que propriamente em narrativas de vítimas, embora isso se reflicta mais nuns capítulos que noutros. 

Para mim, foi ideal, dado o meu desconhecimento da história recente; este é tão chocante, que eu nem sabia o que significava PIDE - Polícia Internacional e de Defesa do Estado. Eu sempre julguei que o "I" era de "Interna". 

 

Um dos capítulos que mais me fascinou foi o da censura, em diversos áreas da vida dos portugueses. Em especial, destacaria a forma como se materializava na comunicação social, que explicará em muito as habituais afirmações dos mais velhos - no tempo do Salazar isto não acontecia.

Crimes e suicídios eram excluídos das notícias (salvo se fosse para anunciar o julgamento dos criminosos), acidentes e mortes causados pelas más condições de vida dos portugueses eram cortados, ocultação ou diminuição do número de mortos em tragédias (por exemplo nas cheias de 1967 em que morrem 462 pessoas). Há palavras e pessoas que passam a não existir. 

 

No mesmo capítulo há factos fascinantes e até engraçados sobre a censura de livros e as estratégias para a contornar.

 

Em Julho de 1965, a PIDE realizou uma rusga à sede da editora "Europa-América", de Francisco Lyon de Castro, apreendendo 73 000 livros, entre os quais se encontrou a obra de Etelvina Lopes de Almeida, O ABC da Culinária.

(...)

Luiz Francisco Rebello, Urbano Tavares Rodrigues, Sofia de Mello Breyner Andresen, Francisco de Sousa Tavares, Mário Sacramento, Fausto Lopo de Carvalho, José-Augusto França, Jorge Reis, Natália Correia, Manuel Cardoso Mendes Atanásio, Alexandre Pinheiro Torres, Augusto Abelaira, Fernanda Botelho, Manuel da Fonseca e Jacinto Prado Coelho. Estes nomes são cortados. Estes escritores morreram!

 

Os capítulos sobre a tortura e o exílio são dolorosos de ler, sendo os que mais reflectem as narrativas das vítimas.

 

(...) as vítimas da violência do Estado Novo têm nome. Não os omitimos. Tiveram e alguns têm ainda, existência real, família, amigos

 

Porém, nestes senti que, em certos momentos, essa intenção de narrar situações em concreto se tornou mais um discorrer de nomes, em que as vozes das vítimas não se fez sentir. Talvez essa falha esteja mais relacionada com o limite de páginas que uma opção dos autores - seria um livro e não um capítulo.

 

E para muitos saudosistas, deveria ser obrigatória a leitura do capítulo sobre a fome, o racionamento de alimentos, as carências alimentares generalizadas.

 

Tenho estado a complementar a leitura do livro com outras, que contextualizem um pouco mais alguns factos que desconhecia. 

 

Em suma, este livro está a ser uma descoberta do que foi o Estado Novo e da nossa história recente. Sinto que, para a leitora é um excelente livro de não ficção e para a cidadã um livro obrigatório.

 

 Alguns parecem hoje querer omitir ou atenuar muitos destes aspectos, reafeiçoando interpretações à sua volta, num processo feito aparentemente de esquecimento, de ajuste de contas ou de reelaboração do passado como se quisessem que tivesse sido outra coisa do que efectivamente foi.

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