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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

28
Nov16

Na minha biblioteca municipal...

... posso reservar livros que estão com muita saída (depois é só aguardar o telefonema a dizer-me que chegou a minha vez)

... posso sugerir que comprem um livro que desejo muito ler e que a biblioteca não possui.

 

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 Claro que, nas sugestões, eu coloco sempre umas notas sobre a importância da aquisição - por exemplo, que venceu o mais importante prémio literário de ficção científica. ;)

27
Nov16

Pausa entre livros

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No decurso da discussão sobre a quantidade, surgiu um tópico que me fez pensar - pausa entre livros. Na verdade, estou a tentar lembrar-me se houve algum livro, em que tivesse sentido a necessidade de fazer uma pausa, para reflectir ou descansar a mente. Não me recordo.

 

Quando mais leio, mais quero ler. Na verdade, quando termino um livro, geralmente tenho logo outro em mente ou a excitação infantil do e o que vou ler agora? 

 

Quando o livro é muito denso ou emocionalmente carregado, é mais frequente fazer a pausa entre páginas que entre livros.

 

Porém, é-me muito difícil resistir ao chamamento do novo livro.

26
Nov16

Também li A rapariga no comboio de Paula Hawkins

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"... a sua constante sabotagem de si próprio, pois é uma característica comum dos alcoólicos fazerem planos e promessas a si mesmos, aos outros, fervorosamente, sinceramente, e na esperança de se redimirem. Promessas que são quebradas vezes sem conta pelo medo, pela falta de coragem, por inúmeras coisas que ocultam esse desejo profundo, arraigado, de eliminar um EU destroçado." 

 

Esta não é uma citação de Paula Hawkinks, mas de Helen Macdonald, no seu A de Açor que terminei ainda há pouco. 

 

Mas é a frase que me vinha constantemente à mente, durante a leitura de  A rapariga no comboio, porque foi a minha parte preferida do livro, a descrição do alcoolismo de Rachel, a personagem principal deste livro. É uma das consequências de quem lê de enfiada os livros... este encadeamento, esta ligação entre todos que é, na realidade a nossa humanidade. 

 

A rapariga no comboio é a primeira obra de Paula Hawkinks e há dois anos que vende milhões e milhões de cópias. É vendido como o livro a ser para quem gostou de "Gone Girl", um thiller vertiginoso, que vai deixar os seus leitores arrepiados. 

 

Querido Diário de Leituras,

cheguei a casa pelas 18h00, tomei um banho, fiz um chá, tomei um comprimido e meti-me na cama.

Como a mente não abrandava, peguei no livro - A rapariga no comboio - empréstimo da biblioteca, depois de aguardar a minha vez no sistema de reservas. Pousei-o pelas 19h30 para fazer o jantar. Jantei na cama com um tabuleiro: garfo numa mão e livro na outra. Às 23h00 o livro estava terminado.

Depois da ficção terminar, a realidade bateu-me à porta e só iria dormir às 5h. 

"Perdi o controlo sobre tudo, até sobre os lugares dentro da minha cabeça" - esta é uma citação do livro em causa.

 

Rachel é uma alcoólica que vive nos subúrbios de Londres e no percurso de comboio, entre a casa onde vive e a cidade, acompanha o dia-a-dia dos habitantes das casas, que vai vendo na sua viagem. Tem uma casa preferida, com um casal a quem atribui nomes e vidas imaginárias.

 

 

Mas a vida tem sempre uma forma de nos estragar a imaginação e ela vê algo que acaba com o casamento aparentemente idílico. E quando o elemento feminino do casal desaparece, ela percebe que foi testemunha de algo fundamental.

Porém, uma alcoólica não é uma testemunha fiável, nem mesmo da sua própria vida.

 

O livro está a ser vendido com um thiller policial - rapariga desaparece, alguém investiga, percorremos as páginas até o clímax: saber o quem/como/porquê. Como policial, confesso que prefiro Agatha Christie.  Paula Hawkinks dá tantas voltas ao texto que começa a tornar-se tão previsível quando inverosímil. 

 

Porém, como romance com um excelente e coerente desenvolvimento de personagem, é muito bom. Adorei o que Paula Hawkinks faz com Rachel, ao longo da obra, preto no branco e com todos os tons de cinza que queiram imaginar.

25
Nov16

T. H. White

Série Outrora e Futuro Rei:

  • 1938 - A espada na pedra - mostra toda a educação de Artur e como chegou a ser rei; nesse livro a proximidade de Artur e Merlin é destacada.
  • 1939 - A rainha do ar e das sombras - sobre a fase da busca do Graal
  • 1940 - O cavaleiro imperfeito - sobre Lancelot, grande cavaleiro e melhor amigo de Artur, e que o trairia com sua esposa Guinevere.
  • 1958 - A chama ao vento - trata dos últimos anos de reinado de Artur e de seu relacionamento com seu filho Mordred.
  • 1977 - O livro de Merlin - publicado póstumamente; é o livro que fecha a série e um manifesto contra movimentos nacionalistas que só provocam a guerra.

 

Fonte

24
Nov16

A de Açor - Helen Macdonald

 

 

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Se me tivessem dito que um dia iria ficar fascinada com um livro de não ficção sobre o treinamento de um falcão, eu iria dizer-vos que me colocaria a milhas de um livro assim. Hoje, coloco-o como um dos melhores livros de memórias que li, na verdade, é bem possível que seja o melhor. 

 

Este é um livro de não ficção, que é uma combinação de livro de memórias da autora, biografia de um escritor (T. H. White), narrativa sobre aves de rapina (história, enciclopédia, descrições diversas, passo-a-passo do seu treino), mas também uma reflexão sobre o mundo em que vivemos (do aquecimento global à tortura em Abu Ghraib). 

 

É um livro sobre o luto. Helen perdeu o pai e decidiu "fugir" para o campo com o propósito de treinar Mabel, um açor, que é uma ave de rapina parecida com o falcão. Esta é a Mabel: 
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Durante o luto, numa espiral de depressão, Mabel é o fio que agarra Helen a uma vida regularizada pelas rotinas do treino. 

 

Porque dorme tanto? As aves de presa dormem quando estão doentes. Esta deve estar doente. Porque estou eu a dormir? Estarei também doente? Que se passa com ela? Que se passa comigo?

 

Segui Helen pelos campos ingleses, cada descrição a colocar-me lá, fosse no deslumbramento da paisagem ou na tensão dos momentos de caça. Mas Helen Macdonald não é uma deslumbrada. Ela sabe o mundo em que vive, ela não se deixa levar pelo enamoramento do mítico passado (nomeadamente os das lendas arturianas, que seriam as obras mais conhecidas de T. H. White).

 

Essas colinas de greda branca tinham a sua história nacional, tal como possuíam a sua história natural. E foi também muito mais tarde que compreendi que estes mitos magoam. Que funcionam para varrer outras culturas, outras histórias, outros modos de amar, trabalhar e estar numa paisagem.

 

Leio este parágrafo, e é-me impossível não associar o trecho aos Descobrimentos, tantas vezes idolatrados e raramente lembrados como o período mais vergonhoso da nossa história, enquanto assassinos e escravizadores de outros seres humanos.

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E na verdade, apesar de termos açores a ocupar quase todas as páginas, este livro é sobre humanos...

 

E também me apercebo de que, todos os dias que passei com a Mabel, só nos abordaram pessoas à margem: crianças, adolescentes góticos, sem-abrigo, estudantes de outros países, viajantes, bêbados, gente de férias. "Agora somos marginais, Mabel", digo-lhe, e a ideia não me parece desagradável. Mas sinto-me envergonhada da reserva dos meus compatriotas. Do seu desejo de continuar a andar, de seguir caminho, de não comentarem, não interrogarem, não se interessarem por qualquer coisa peculiar, invulgar, por nada que não seja completamente normal.

 

Poderia dizer-vos como me senti permanentemente tocada pela experiência de Helen Macdonald, na verdade, tão em sintonia com os seus sentimentos que é um pouco assustador - afinal de contas é também um livro sobre o luto e a depressão. Mas porque isso me parece demasiado desagradável, termino com palavras de esperança na humanidade:

 

As mãos são para serem seguradas por outras mãos humanas.

 

23
Nov16

Ler em quantidade

Li com enorme prazer o texto do blog sayhellotomybooks que, aliás, tem um dos títulos mais divertidos para um blog de livros que já encontrei (e já lho havia dito).

 

E no espírito da contradição, querendo provar que é possível ter uma discussão sobre um tema sem que isso seja um julgamento pessoal (faço minhas as palavras do último parágrafo do seu post), venho aqui fazer a apologia da quantidade.

 

Desde logo, discordo do quantidade vs. qualidade, na medida em que incorpora imediatamente um julgamento de que menos é melhor e pode não ser; e claro, que ler mais é perder qualidade.

 

Não acredito que quem lê menos, necessariamente leia melhor. Pode simplesmente ler menos. Aliás, estive quase três anos sem ler um livro, um verdadeiro hiato literário... não foi melhor. 

 

A minha média é puramente psicológica - 52 livros por ano. Mas não é um verdadeiro número a atingir, é uma espécie de lembrete de que me estou a distrair com o que não devo - no meu caso, o buraco negro que é a internet. 

Mais, para mim, 52 livros nem são necessariamente livros, podem ser calhamaços de 600 páginas como um Moby Dick, mas também pode ser um conto ou uma novela gráfica - é aquilo que eu desejar ler.

 

Uma meta, à partida, pode ser uma excelente ferramenta para nos motivar para darmos prioridade aos livros em detrimento a outras actividades que considerarmos menores. Cada qual usa as estratégias que melhor servem a sua vida. 

 

Partir do pressuposto que todos que criam um número estão a competir, parece-me um julgamento precipitado. É presumir que todas essas pessoas estão a olhar para o lado, a ver o que os outro lêem, seja para fazer melhor ou questionar a "qualidade".

O número que criei fi-lo para mim, talvez por isso não tenha sequer me apercebido dos números dos outras/os. Mas agora que penso nisso, tenho imensa curiosidade em ver estatísticas sobre médias anuais de livros lidos em Portugal. Tenho que procurar isso.

 

Livros grandes, pequenos eu papo-os todos

Protesto veementemente, a bater com o pé no chão, a quem disser que livros pequenos são "menores". As minhas provas:

- uma grande parte dos livros de poesia têm menos de 100 páginas (ora benham cá dizer-me que um livrinho do Eugénio de Andrade não é bom, que eu já vos digo...);

- há grandes obras literárias que têm menos de 100 páginas, por exemplo:

  • Se tivesse de recomeçar a vida, Raul Brandão
  • Loucura, de Mário Sá Carneiro
  • Alice no país das maravilhas, Lewis Carroll
  • Cândido, Voltaire
  • O médico e o monstro, Robert Louis Stevenson
  • O principezinho, Saint Exupery
  • A virgem e o cigano, DH Lawrence
  • A fera na selva, Henry James
  • Bestiário, Júlio Cortazar
  • ... 

... apenas uma pequena amostra das leituras, que me recordo, e que têm menos de 100 páginas. Ora, um livro de 100 páginas pode ler-se num dia (até em menos de 1 dia). O mesmo acontece com um de 200 páginas... e há tantos clássicos magníficos até 200 páginas.

 

E não é sacrifício nenhum... eu não estou a abdicar de tempos de lazer para ler. LER É O MEU LAZER. 

São 20:50 horas. Cheguei às 18h00 a casa, pus a descongelar carne picada estufada, liguei o aquecedor no quarto, deitei-me na cama com uma manta nos pés e um livro na mão. É agora que vou levantar-me fazer o jantar (cozer massa e aquecer a carne) e é para aqui que volto. Só liguei o computador porque me tinha esquecido de enviar um email relacionado com o trabalho. Lembrei-me do post que li esta manhã e pimba... mais uma hora no computador.

 

Nunca, para mim, ler foi uma tarefa (a não ser no trabalho), ou algo que me priva de coisas melhores. Ler é um prazer e por isso, quando posso, aproveito o tempo livre para ler. 

 

Há quem prefira sentar-se ao televisor ou abrir o Facebook, eu prefiro um livro. E também vejo televisão e, como comprova uma aplicação que tenho para medir o meu tempo de internet, também surfo pela web, vejo o Bored Panda, vejo muito youtube, entre outros.

 

Se calhar está aí o problema da pouca leitura: colocar os livros como algo que nos priva de tempo de lazer. Devíamos todas/os ler mais, muito mais.

 

É mesmo preciso um período de "digestão" entre livros?

Não acho. Aliás, geralmente há livros que me levam a outros livros. E até há livros que é uma experiência muito interessante ler em simultâneo. 

Estou a ler em paralelo duas colecções de história: uma do Porto, a outra sobre de mulheres portuguesas. Vou lendo em simultâneo para ligar o período histórico de ambos os livros. 

Neste momento, estou a ler A de Açor de Helen Macdonald, que é um livro de memórias mas também de meditação literária - os livros mencionados estão todos a entrar na minha lista de leituras. Aliás, se tivesse um dos livros mais mencionados, seria brilhante fazer uma leitura em simultâneo - há casos e casos.

 

Quando me dá para ler Agatha Christie, não só me acontece ler um por dia, como posso ler vários de enfiada. Não é porque quero atingir um número, mas porque não consigo/quero parar.

 

Não costumo ler mais que um livro de ficção em simultâneo, mas frequentemente tenho livros de bolso com contos, novelas ou poesia, na carteira - bons transportar para aproveitar pequenos momentos. E nessas alturas, leio o calhamaço em casa e os levezinhos na rua. 

 

Já li/ouvi mais de que uma vez esse questionamento: e as personagens não se confundem? Mas curiosamente nunca ouvi essa pergunta a ser feita a quem vê muitas séries televisivas.

Já agora, a minha resposta é não. Eu não confundo o Camilo Castelo Branco da Fanny Owen de Agustina Bessa-Luís (leitura de Janeiro) com o Stuart (que está a ajudar a Helen a adestrar o açor... porque confundiria?)

 

Quem lê muito, lê muitos livros maus

 

Muitos ou poucos, quando pegamos num livro corremos sempre o risco de apanhar um livro que "não é bom" (quem julga?) ou que não gostamos ou que simplesmente não é o momento certo na vida para o ler. 

No meu hiato literário abandonei Catcher in the Rye. Não é bom? Estava a ler pouco, e nem por isso li com qualidade. Li-o mais tarde, precisamente quando voltei a ler mais - senti-o e compreendi-o e adorei o livro.

 

Das duas uma, ou ficamos pela lista de maiores e melhores e reduzimos os riscos de ler "maus livros" (afinal de contas há uma razão pela qual os clássicos chegaram a clássicos) ou arriscamos diversificar e descobrir novas leituras. Corremos o risco de ler um livro mau? Sim, mas também podemos fazer descobertas assombrosas.

 

Quem não arrisca, não petisca.

 

Não uma lista que me guiasse para As novas cartas portuguesas e outras obras que li das "três Marias", mas o assombro desse livro fez-me "arriscar" a descobrir outros livros que não gostaria, ou gostaria menos, dessas autoras. É o meu livro preferido deste ano e considero-o uma das obras mais brilhantes e mais esquecidas da literatura portuguesa.

 

Foi num impulso - porque ouvi qualquer coisa num vídeo - que li O quinze, de Raquel Queiróz, um pequeno livro que é um gigante da literatura brasileira, mas que é também um dos livros que mais me impressionou em toda a minha vida.

 

Eu prefiro ler 50 livros e não gostar de 5, que apenas ler 5 e gostar de todos. Mais, acho que só a ler alguns livros maus saberemos realmente o que é bom. Acho que limitar as leituras, porque optamos pelo seguro e evidente, não saindo da nossa zona de conforto, é que poderá ser um afunilar de horizontes. 

 

E não me falem de livros rápidos, por amor da santa...

Lá porque se lê rapidamente tem de ser mau? Mas porquê?! 

Ofereço como prova o livro O Assassinato de Roger Ackroyd, um romance policial de Agatha Christie, consensualmente considerado uma obra prima da literatura inglesa e que se lê numa penada. 

Um mais recente: Gone Girl é um brilhante thriller psicológico e não consegui pousar até o acabar de ler (li num fim de semana).

 

Por tudo isto, concluo que não concordo que a quantidade seja sinónimo de perda de qualidade.

Até porque, isso implicaria um julgamento da quantidade ideal, que irá depender de factores tão diversos como a velocidade de leitura de cada um, o tempo disponível, o tempo que estão dispostos a dispor para ler, o tipo de livros, o número de páginas...

 

Em suma, leiam muito!

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