Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

29
Abr17

Capitãs de Abril - Ana Sofia Fonseca

 

Se tivesse de escolher uma frase para descrever este livro, diria que foi aquele que me ensinou, o que não sabia que desconhecia.

Ana Sofia Fonseca concentra-se nas horas que antecederam a revolta dos militares, pelos olhos das mulheres que os acompanharam, desde as namoradas, às esposas, até àquela que daria no nome à revolução. 

Na descrição dessas horas, vai contextualizado como os casais se conheceram e de como chegaram ali. Acima de tudo, sobre como era ser mulher no Antigo Regime.

 

Nas férias, nas idas à Beira Alta semeavam-lhe perguntas no pensamento. Porque é que as pessoas andavam descalças? Porque é que, com este frio, os meninos não usam sapatos? Por que é que não posso ser amiga daquelas meninas? Interrogações que a mãe cala de uma assentada:

- A menina não está boa da cabeça. 

(...)

- A menina não está boa da cabeça - dizia a mãe, sempre que Isabel ousava algum comentário.

A fim de não arranjar discórdias, a miúda acostumava-se a observar calada. Não sabe o quê, mas algo no mundo anda desconcertado. Com Pedro aprenderá os nomes das coisas. 

 

Pelo meio, a história da vida privada dos portuguesas da época, com destaque para a vida dos militares na guerra colonial.

 

Fiquei com imensa vontade de ler África no feminino, as mulheres portuguesas e a guerra colonial de Margarida Calafate Ribeiro.

Cada vez mais, a consciência do que me falta saber: o PREC e a guerra colonial pelos olhos dos povos indígenas.

 

 

Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os sociais, os corporativos e o estado a que chegámos! De maneira que quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. 

Salgueiro Maia, 24 de Abril de 1974

 

28
Abr17

Capitãs de Abril - os cravos

Que fantástico, este pequeno livro.

 

 

 

- Então, e precisam de alguma coisa? Como é que posso ajudar?

- Se tiver um cigarrinho... Um cigarrinho calhava bem.

A mulher deita males à vida, tantos anos a vender tabaco e agora nem um maço. Se fumasse, ao menos teria um cigarro no bolso, assim nem réstia de nicotina e as lojas estão todas encerradas.

- Bem gostaria de lhe dar um, mas nunca fumei... Olhe, tome lá um cravo que tanto se oferece a uma senhora como a um senhor.

O soldado agradece num sorriso, estende a mão para apanhar o cravo e arruma-o no cano da G3. Dia de alegria, a arma como jarra. Celeste gosta da idea, antes flores que balas. Num ápice, distribui o molho inteiro pelos militares com quem se cruza, os cravos do "Franjinhas" nas armas do Exército. 

28
Abr17

Capitãs de Abril - Ana Sofia Fonseca

 

A família não tinha pé-de-meia, mas teve engenho para sentar os quatros filhos nos bancos da escola. Todas as manhãs, horas a pé até à ardósia mais próxima, ao sol e à chuva, pés descalços e lobos no recreio. O pai vai mudando de colocação e a família acaba por ir parar à Marinha Grande. Mas nada livra o rapaz do pesadelo da infância - numa das primárias, à conta de não ter sapatos, a professora condenou-o à rua. A dor desse dia fundeou no mais profundo da alma, décadas a fio, volta e meia havia de acordar a sonhar-se de farda número 1 e pés descalços.

25
Abr17

Maus - Art Spiegelman

image_0

Maus ("rato", em alemão) é a história de Vladek Spiegelman, judeu polaco sobrevivente de Auschwitz, narrada por si próprio ao filho, o cartoonista Art Spiegelman. 

Mas não é só uma história do Holocausto. É uma história de sobre relações (especialmente entre pai e filho), sobre o que caracteriza a humanidade e os riscos de desumanizar grupos de pessoas.

DSC_0212

Maus foi originalmente publicado numa revista e em partes. A edição a que tive acesso já unia os dois livros: "A história de um sobrevivente" e "E aqui começaram os meus problemas".  

 

Com as primeiras páginas lidas, tive a necessidade de ir em busca do nome que assina a tradução. É que parecia estar cheio de erros. Não. Uma nota explicava a intencionalidade de traduzir como exigiu o autor, que replicou a forma como fala o seu pai, um polaco imigrante e idoso a falar num inglês sem correcção gramatical ou sintáctica.

 

Não consigo encontrar as palavras que traduzam a importância deste livro, a importância de manter vivas as memórias do Holocausto, de cimentar nas nossas vidas o que acontece quando se alimentam sentimentos extremistas, em vez da diversidade e compaixão humana. 

 

Por isso, não deixem de renovar o vosso compromisso com a democracia e a liberdade, juntando-se às comemorações deste dia. "25 de Abril" não é uma opção por um regime político, é a luta (que deve ser diária) por uma vida em liberdade.

24
Abr17

Eu só ia entregar dois livros....

1

... mas já tinha chegado o Maus, e estava disponível o A história das coisas (eu sugeri a compra de ambos). O que pode uma pessoa fazer?

 

A história de uma serva estava nos destaques. Gosto de acreditar que há ali uma mãozinha de activismo literário. 

 

A ficção tem de sair da minha estante, que continua a abarrotar de livros não lidos.

24
Abr17

Final Feliz

Há dias acompanhei uma discussão muito interessante, no Twitter, sobre se os romances (românticos) deveriam ser ou não com final feliz, para serem verdadeiros romances (românticos). 

 

Lamento informar que, as duas facções não chegaram a acordo sobre a matéria.

 

Levou-me a pensar que, verdadeiramente, está-me a faltar ficção divertida ou romântica com um final feliz, na ficção portuguesa. Aceitam-se sugestões.

23
Abr17

No Dia Mundial do Livro comecei a vender a minha biblioteca

jonathan-simcoe-227321

A ideia tem-se vindo a desenvolver nos últimos tempos.

 

O número de livros não lidos não tem diminuído, até porque as trocas que trazem novos inquilinos e as bibliotecas municipais estão sempre a tentar-me.

 

O sonho de deixar uma biblioteca para as minhas sobrinhas, tem tanto de utopia altruísta como um acto egoísta. Querer ter uma biblioteca em casa com mais de 400 livros, é irrealista, para uma casa como a minha (que sequer é minha).

 

Parece-me irreal, estar a ser tão displicente com a minha biblioteca. Os livros são a melhor parte do meu dia. Mas a verdade é que não sinto necessidade de os ter em casa.

 

Por isso, decidi começar a vender a biblioteca pessoal (não se preocupem, não verão aqui anúncios de venda). Não tenho pressa e não é algo de absoluto.

 

Pretendo doar alguns livros não lidos, que a minha biblioteca municipal não tenha. Assim, sei onde estarão quando os quiser ler.

 

No fundo, culpo a minha biblioteca municipal, onde tenho encontrado tudo o que desejo para ser uma leitora feliz. 

21
Abr17

A colecção privada de Acácio Nobre - Patrícia Portela

13_capa acacio

Estava pousado numa mesa de destaques da biblioteca. Li a contracapa:

Fui recolhendo, ao longo de 16 anos, cartas, diários, testemunhos, maquetas de jogos e armadilhas de Acácio Nobre (1869?-1974), um construtor de puzzles geométricos visionário no século XIX que uma ditadura silenciou no século XX e (quase) eliminou de uma História que ainda assim influenciou, de forma subtil e anónima, introduzindo uma marca indelével e inevitável nos séculos vindouros, como o nosso.

Cismei com o nome desta autora que nunca li.

Lembrei-me, que era a que tinha escrito uma crónica no Jornal de Letras, sobre uma orca, que me impressionou. Na altura (vi mais tarde) anotei uma descrição de Miguel Real e fiz um post para memórias futura: "A mais desconcertante das novas escritoras portuguesas".

 

Não sabia o que me esperava. Pensei que fosse um ensaio biográfico ou livro de memórias. A melhor descrição que encontro para ele é a que foi feita para um outro, da mesma autora: "objecto-literário-não-identificável" (Raquel Ribeiro, Ípsilon Público).

 

Todo o livro é um catálogo anotado do espólio de Acácio Nobre, uma interessante personagem (fiquei muito desiludida por descobrir esse facto, diga-se de passagem) nascida em 1869, que se vai cruzando com Fernando Pessoa, Melville e outras do mesmo calibre.

 

Um vanguardista, fazia inventava jogos e escrevia inúmeros ofícios a responsáveis do país, defendendo a implementação dos Kindergarten (os percursores dos actuais infantários), criado pelo pedagogo Friedrich Fröbel; era também alguém que fugia da PIDE e tinha um clube no seu nome - C.A.A.N. - Clube dos Amigos de Acácio Nobre.

 

E, aparentemente, também tinha amigas:

Ao que parece, Nobre traz sempre uma corrente de relógio no seu bolso, não com um relógio mas com uma jóia que "faz", e estou mais uma vez a citar, "as delícias mais íntimas das mulheres"

Além de vanguardista, era deliciosamente anti-corrente:

Acácio Nobre sempre escreveu "como cheria e lhe apetecia" (...) sobretudo para fintar qualquer purista ou simplificador "ser litherário que ouzasse domar uma lengua tão selvagem"

 

Acreditem que vão querer conhecer esta surpreendente personagem e o incrível universo de Patrícia Portela.

 

 

A leitura de Patrícia Portela veio validar a minha resolução de afunilar as minhas escolhas literárias por períodos de tempo determinados. Isso tem levado a que leia de forma mais intencional, explore novas/os autoras/es e me continue a surpreender com as descobertas.

20
Abr17

Apagão digital

Ontem estava tão irritada que desliguei o computador às 19h30 (mais coisa menos coisa). Terminei dois livros e li um terceiro. 

Ler mais é uma questão de escolhas.

É verdade que só me deitei no dia seguinte, mas... 

1

 

Pág. 1/3