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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

21
Jul17

Educação literária

Como sou uma pessoa poupada (remediada), já imprimi as listas de livros constantes das metas curriculares de português (básico), para o próximo ano lectivo.

 

O meu objectivo é recorrer aos sites de trocas de livros para conseguir o maior número de obras possível, a custo zero.

 

Começo por perguntar à pequenada o que já têm, depois vejo o que há lá por casa, e também  imprimo algumas coisas (o ME disponibiliza os poemas num caderno de apoio do 7º ao 9º ano).

 

Estava de volta do da lista do 9º ano e constato que nada li, a não ser Camões e Gil Vicente, na escola. Excepção para dois contos de Eça de Queiróz. É mau!

 

Está visto que já tenho uma lista de leitura para as férias, ou não fosse 2017 o meu ano de ler literatura lusófona.

 

21
Jul17

Traduções à parte

A história é deliciosa. Um verdadeiro conto de fadas, em que uma tradutora auto-didacta se revelava, ao traduzir uma das obras do ano - The Vegetarian, de Han Kang, que viria a receber o Man Booker Prize.

 

 Aparentemente, não só era auto-didacta como tinha começado a aprender coreano há apenas 6 anos. 

 

Agora, parece que o destaque que a obra teve, levou a que muitos coreanos, ao ler a obra, questionassem a tradução. A controvérsia emergiu quando uma análise mais cuidada, terá demonstrado que a tradução tinha graves problemas.  

 

De acordo com um artigo científico, apresentado numa conferência na Ewha Womans University, 10,9% da primeira parte do romance estava traduzida incorrectamente (de erros pequenos a muito grandes) e 5,7% do texto original foi omitido. E como refere a notícia, isso apenas na primeira parte.

 

Mas o que é apontado como sendo mais grave são os aditamentos que a tradução teria feito, a cerca de 30% do texto original (ainda estamos na primeira parte).

 

Não consigo enfatizar o quanto o estilo de escrita de Han Kang é diferente em coreano. As frases de Han são esparsas e silenciosas, às vezes terminam em fragmentos. Em contraste, Smith usa um estilo alto e formal com floreados líricos. Como observou um crítico, a tradução tem um "tom do século dezanove", que lembra Chekhov. 

Isso altera mesmo como as personagens são retratadas. Smith faz o marido de Yeong-Hye parecer arrogante, sofisticado e pedante. Na verdade, ele é um tipo básico, tosco, inconsciente de seu próprio sexismo ou seus preconceitos. Meus alunos sentiram que o personagem era totalmente deturpado.

[A tradução é minha] 

 

Será caso para questionar quem ganhou o Booker?

 

 

 

21
Jul17

Lidos em 2017

Não Ficção

1. Furiously Happy - Jenny Lawson [audiobook]

2. Porto Cartoon World Festival 2014 B

3. Lab Girl - Hope Jahren  [audiobook]

4. Perdidamente, Correspondência amorosa 1920-1925 - Florbela Espanca (organização Maria Lúcia Dal Farra). B

5. O árabe do futuro 1 - Riad Sattouf [Novela gráfica]  B

6. Um mundo infestado de demónios - Carl Sagan E

7. Capitãs de Abril - Ana Sofia Fonseca  B

8. Comer para controlar a diabetes - Joana Ramos Oliveira B

9. Porto Desconhecido & Insólito - Histórias que (provavelmente) nunca ouviu - Germano Silva B

10. Génesis - Sebastião Salgado B

11. A história das coisas - Annie Leonard B

12. Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência - David Marçal e Carlos Fiolhais B

13. Cleópatra - Stacy Schiff B

Pensar depressa e devagar - Daniel Kahneman  [a ler] B

 

Ficção

Casos em que me esqueci do desafio ;)

1. I Married a Billionaire - Melanie Marchande (ups! estava no tlm. e li sem me lembrar do desafio do ano; invoco em minha defesa que era a única coisa numa espera de horas).

2. A rainha das aves - Helen Ward E

Lido a pedido da sobrinha (que me emprestou o livro):

3. A viúva e o papagaio - Virginia Woolf

 

Novelas gráficas estrangeiras de ficção 

1. Democracia - Alecos Papadatos, Abraham Kawa e Annie Di Donna B

2. Maus - Art Spiegelman B

3. Anne Frank - biografia gráfica, Sid Jacobson & Ernie Cólon B

4. Alex + Ada #1,  Jonathan Luna, Sarah Vaughn

5. Alex + Ada #2,  Jonathan Luna, Sarah Vaughn

 

Portugal

1. Os passos em volta - Herberto Helder. B

2.O crime do Padre Amaro - Eça de Queiróz. E

3. Sermões - Padre António Vieira. E

4. Ana, uma investigação de Filipe Seems #1  - Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves [Novela gráfica] B

5. A História do Tesouro Perdido, uma investigação de Filipe Seems #2 - Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves [Novela gráfica] B

6. A Tribo Dos Sonhos Cruzados, uma investigação de Filipe Seems #3 - Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves [Novela gráfica] B 

7. As incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

8. As extraordinárias aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy II - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

9. Os vampiros - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B

10. As fantásticas aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy III - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

11. Os contos inéditos de Dog Mendonça e Pizza Boy - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

12. A madona - Natália Correia E

13. História da Beleza Fria - Teresa Veiga  E

14. O último Eça - Miguel Real E

15. Poesia/Prosa - Nuno Júdice E

16. A colecção privada de Acácio Nobre - Patrícia Portela  B 

17. A dama pé-de-cabra - Alexandre Herculano (conto)  E

18. A ruiva - Fialho de Almeida (conto)  E

19. Crónica dos bons malandros - Mário Zambujal  E 

20. Adoecer - Hélia Correia   E 

21. O espaço vazio - Dick Haskins   E

 

Angola

1. O homem que parecia um domingo - José Eduardo Agualusa E

2. Estação das chuvas - José Eduardo Agualusa E

 

Brasil

1. Ninguém mais se perderá por Luba - Luiz Lopes Coelho (conto)  E

2. Tungstênio - Marcello Quintanilha [Novela gráfica] B

3. Talco de vidro - Marcello Quintanilha [Novela gráfica] B

4. A sucessora - Carolina Nabuco  B

5. Gabriela, Cravo e Canela - Jorge Amado  E

6. Capitães da Areia - Jorge Amado  B 

7. Dona Flor e seus dois maridos E

 

Cabo Verde

1. Os flagelados do vento leste - Manuel Lopes  B 

2. Os dois irmãos - Germano Almeida  B

3. O novíssimo testamento - Mário Lúcio Sousa [a ler]   E

 

Guiné-Bissau

Moçambique

São Tomé e Príncipe

Timor Leste

 

B - Biblioteca

K - Kindle app (telemóvel e computador)

E - Estante

19
Jul17

Sentimento

_Valha-nos Deus, chamem o médico, chamem o médico,

(...)

_Não chamam nada, na minha morte mando eu,

 

Claro está que a velha não podia dizer "Na minha vida mando eu", porém, com aquele trocadilho, estava a fazer uma clara alusão à vida que ela não vivera e por que sempre tivera curiosidades, sempre desejara experimentar, mesmo escondida atrás das rezas e dos terços, porém tal reacção era uma amostragem de todo o seu descontentamento, uma provocação e uma cobrança do que ela tinha na alma e em mente e que a alma e a mente nunca buscaram consenso... 

 

1

 

18
Jul17

Os dois irmãos - Germano Almeida

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No meu mês dedicado a Cabo Verde, assinalei alguns autores que ia encontrando, pela Internet, identificados como "referência" da literatura cabo-verdiana. Germano de Almeida era um desses autores. 

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Escolhi Os dois irmãos, porque algures, li que seria a sua obra mais popular. 

 

Os dois irmãos é a história de um fratricídio, em que André mata o irmão (João) porque este cometeu adultério com a sua esposa. Parece um caso simples, mas não é:

Logo nos primeiros dos dois dias que tinha demorado o julgamento ele tinha sido colocado perante uma constatação de certa forma embaraçosa: depois do público conhecimento dos factos que estavam na origem do fratricídio, aquela luta tinha sido reputada como tão certa e tão absolutamente necessária que parecia que até ao fim continuava escapando ao entendimento de todo o povoado a razão porque André tinha levado tanto tempo a consumá-la.

 

É essa dúvida que assolará o juiz, durante todo o julgamento e é no decurso desse que se vai desenrolando um novelo de histórias, entre tensões sociais e sentimentos pessoais.

É também um retrato de uma sociedade que vive entre duas forças e choques, entre a tradição e a modernidade. Se por um lado temos a vida fechada da aldeia, por outro as intrusões dos seus filhos que começam a sentir-se puxados por uma vida exterior (emigração) moderna e cosmopolita.

 

Vou ser honesta, senti-me verdadeiramente puxada por este livro e não consegui parar de ler, até (também eu), saber o que tinha acontecido naquele intervalo de 3 semanas, em que André não matou o seu irmão.

16
Jul17

Os flagelados do vento leste - Manuel Lopes

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Doía-lhe ver as crianças metidas nas misérias deste mundo. Os homens podiam evitar isso. Fingir que não há sofrimentos no mundo, fingir que a vida não é o que é... Qualquer coisa assim... à custa de todos os sacrifícios, se fosse preciso... Quase odiou esses dois esqueletos que se afastavam. Surgiam, assim, no meio das suas fantasias. Essa brutal intromissão da realidade mostrava, por momentos, a inconsistência dos seus sonhos. O peso da vida estorvava-lhes o esvoaçar das asas...

 

 Os flagelados do vento leste, de Manuel Lopes não é uma leitura fácil. A razão é pelo vocabulário cabo-verdiano, mas pela dramática temática - a fome, de quem vive dependente dos elementos naturais, para a sua sobrevivência. Lembrou-me, frequentemente, de O Quinze de Rachel de Queiróz. Infelizmente, a fome e a pobreza são elementos universais.

 

(...) e as mulheres daqueles que não tinham coragem pensavam na fome que bateria primeiro às portas das mulheres dos que dividiam o seu milho com essa terra que nada lhes prometia, e cujos filhos, famintos, iriam um dia arastar-se sobre cada cova para desenterrar, ardidos, grão a grão, os milhares de grãos que os pais, sem dó, estavam enterrando agora...

 

Em Os flagelados do vento leste, vamos seguir os destinos dos diversos elementos da família do agricultor José Cruz, bem como dos seus vizinhos, quando as suas culturas são queimadas por um vento leste, aliado a períodos de secas. As personagens são desenvolvidas com mestria, gerando verdadeiras imagens universais, porque também são universais os sentimentos: coragem, desespero, bondade, crueldade...

 

Estranho, mas durante toda a leitura deste livro, vinha-me à mente a imagem de uma senhora de idade, no meio de terra queimada, a dizer "Primeiro foi o fogo, agora a fome." Pese embora os problemas, sinto-me agradecida por viver num Estado Social.

 

Mas não só, também pensava na esperança dos projectos de reflorestação de desertos. E por falar em projectos... tenho de consultar o meu saldo KIVA.

 

Os livros levam-me sempre por caminhos imprevisíveis.

 

15
Jul17

Dewey

Por vezes, passamos a vida com palavras na boca, sem ter a mínima ideia sobre a história que encerram. Foi assim que me senti a ouvir um episódio do podcast Every Little Thing - Dewey Decimal Drama (a partir do minuto 08:45).

 

Se são utilizadoras/es de bibliotecas, certamente já ouviram falar do sistema decimal de Dewey, que é um sistema de catalogação do conhecimento em grande áreas, que depois se vão subdividindo. É o que permite organizar os livros nas correspondentes prateleiras, com números que significam a área de conhecimento do livro.

 

Em Portugal utilizamos o CDU - Classificação Decimal Universal, que é baseado no sistema decimal de Dewey.

 

O que desconhecia é que Dewey era Melvil Dewey (1851–1931), um homem muito pouco recomendável (preconceitos, racismo, misoginia e até assédio sexual), que criou um sistema à sua imagem.

 

E se pensarmos que somos expostas/os a um sistema, que organiza os conteúdos por ordem de grandeza, desde a nossa infância (desde que utilizamos a biblioteca), certamente compreenderão a importância da organização, por exemplo de livros sobre religiões:

200 - Religião

210 - Teoria e filosofia da religião

220 - Bíblia

230 - Cristianismo

240 - Prática cristã

250 - Ordens cristãs e igrejas locais

260 - Teologia social e eclesiástica

270 - Historia do cristianismo

280 - Denominações cristãs

290 - Outras religiões

 

É fácil de ver como um sistema, que se pretende de utilização universal, não pode evidenciar tamanha discriminação religiosa: não é verdade que haja uma correspondência estatística (o cristãos não são 9/10 da população mundial), nem em conteúdo (não há mais para saber/conhecer no cristianismo, que em outras religiões).

 

Mas o podcast não é só sobre os preconceitos de Dewey, mas também do Google, ou dos dados, ou dos nossos.

 

A minha lição deste podcast - cria o mundo que queres ter. E a pensar que o post começou com um sistema de catalogação...

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