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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

21
Mar17

Dia Mundial da Poesia #3

O pequeno sismo

Há um pequeno sismo em qualquer parte

ao dizeres o meu nome.

Elevas-me à altura da tua boca

lentamente

para não me desfolhares.

Tremo como se tivera 

quinze anos e toda a terra

fosse leve.

Ó indizível primavera!

 

Os Sulcos da Sede, Eugénio de Andrade

21
Mar17

Dia Mundial da Poesia #2

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Ver claro

Toda a poesia é luminosa, até

a mais obscura.

O leitor é que tem às vezes,

em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.

E o nevoeiro nunca deixa ver claro.

Se regressar

outra e outra vez

e outra vez

a essas sílabas acesas

ficará cego de tanta claridade.

Abençoado seja se lá chegar.

 

Os Sulcos da Sede, Eugénio de Andrade

21
Mar17

Dia Mundial da Poesia #1

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Quero dizer-te uma coisa simples: a tua

ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não

magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,

por isso, de deixar alguns sinais - um peso

nos olhos, no lugar da tua imagem, e

um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes

tivessem roubado o tacto. São estas as formas 

do amor, podia dizer-te; e acrescentar que

as coisas simples também podem ser

complicadas, quando nos damos conta da

diferença entre o sonho e a realidade. Porém,

é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que

os dias correm mais depressa, e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,

quando a tua voz me chama de dentro de

mim - e me faz responder-te uma coisa simples,

como dizer que a tua ausência me dói. 

 

18
Mar17

Capitães da Areia - Jorge Amado

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Pedro Bala, Dora, Professor, Gato, João Grande, Sem Pernas... personagens que jamais esquecerei.

 

Jorge Amado é absolutamente perfeito na construção de personagens. Na verdade, consegue de forma exemplar construir cada uma das personagens individuais, assim como a que é o seu colectivo "os capitães da areia".

 

É um livro violento e cru sobre a marginalidade infantil. Por vezes custa ver um certo romancear da violência, da pobreza e até da violação de mulheres, mas confesso que me chocou muito mais a forma como descreveu a ausência do amor.

 

Numa nota curiosa, também este livro está recomendado para o 3º ciclo, no Plano Nacional de Leitura. 

 

Capitães da Areia é o livro de Jorge Amado mais vendido no mundo inteiro. Publicado em 1937, teve a sua primeira edição apreendida e queimada em praça pública pelas autoridades do Estado Novo.

 

Agradeço imenso a quem, na caixa de comentários insistiu que lesse Capitães da Areia. Não fossem as vossas recomendações, com 3 outros livros do autor na estante, provavelmente iria adiar a leitura. Agora, não vou descansar enquanto não tiver o meu exemplar. 

 

17
Mar17

Gabriela, cravo e canela - Jorge Amado

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Antes de mais, tenho de agradecer à Bárbara que me incentivou a começar por Gabriela, cravo e canela (por não ter Capitães da Areia). 

 

O livro é absolutamente magnífico e, desde o momento em que peguei nele, não o consegui pousar, tendo-o lido num dia (ou dois, se considerarem que já me deitei às 2h00).

 

Gabriela, cravo e canela é uma história de vários amores e do amor a uma cidade. Há uma Baía que reconhecemos das telenovelas: os comerciantes, os coronéis, as amantes mantidas, os jagunços, um todo imaginário social que é absolutamente delicioso de ler.

Até há a jovem, que lê O crime do Padre Amaro, apesar de ser um livro considerado imoral. Também encontramos em Gabriela, cravo e canela uma crónica dos costumes.

 

A personagem Gabriela é absolutamente fantástica, a natureza no seu estado puro, com o progresso da cidade como pano de fundo. Há quem a tente mudar, educá-la, mas Gabriela é indomável, como o vento que acaba por contornar os edifícios, mas que não pode ser parado.

 

Gabriela chega à cidade e logo encontra trabalho com Nacib, um próspero comerciante de origem síria que, de imediato, fica rendido aos temperos da nova cozinheira. E quem diz temperos, diz a sua beleza, o seu cheiro a canela, a sua sensualidade e a forma carinhosa como o trata: moço bonito.

 

O cheiro de cravo,

a cor de canela,

eu vim de longe

vim ver Gabriela.

 

Um dos pontos fortes deste livro é, sem dúvida, a forma como Jorge Amado consegue cruzar o desenrolar da relação de Gabriela e Nacib como a evolução da sociedade local. 

 

Um ponto negativo (muito pequenino) é um pormenor no fim (que naturalmente não posso discutir convosco). Uma coisinha pequenina... que já está perdoada.

 

O livro é magnífico e merece muito ser lido.