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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

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05
Set17

A criação do Mundo - Miguel Torga #1

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Como já havia referido, o plano era dedicar-me a Miguel Torga durante as férias em Agosto. Todavia, só no início de Setembro é que tive o sossego que necessitava para as quase 600 páginas de A Criação do Mundo.

 

A Criação do Mundo é um romance autobiográfico na obra de Miguel Torga. Encontra-se dividido em 6 livros (os 6 dias da criação do seu mundo) e foi publicado entre 1937 (os primeiros dois dias) e 1981 (a 14 anos da sua morte).

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No primeiro e segundo dias temos a infância, a escola, a fuga do sacerdócio (frequentemente a única alternativa à agricultura para os jovens pobres que se destacavam) e a sua ida para o Brasil, para viver com um tio.

Uma vida de pobreza era precisamente aquilo que os pais de Adolfo Correia Rocha procuravam evitar para o filho, mesmo que para isso ficassem sem ele. Foi sem o calor da família que este cresceu, entre responsabilidades que actualmente jamais ponderaríamos impor a um jovem.

 

 No terceiro dia, o retorno a Portugal e o desencontro com um ambiente de aldeia fechado e excessivamente deferente a um jovem letrado, condenam-no a nova solidão. 

 

O quarto dia, retrata um périplo pela Europa, com dois companheiros de viagem. Porém, esta é a Europa de Franco, Mussolini e Hitler e os horrores contrastam com a luminosidade dos monumentos e da arte. 

Durante toda a viagem, Torga não deixa de confrontar essa luz com um Portugal "analfabeto", tolhido por um regime autoritário. Sem surpresas, o livro é proibido e Torga preso em 1939. O volume seguinte, que retrata precisamente esse período nas mãos da PIDE, só viria a ser publicado em 1974. 

 

Curiosamente, do banho de cultura, Torga chega a Portugal reconciliado com as suas origens:

- Feliz ou infelizmente, conheço os meus limites, que este passeio pela Europa ajudou furiosamente a precisar. Seria capaz de viver longe da pátria na situação de emigrante que ganha o seu pão. Já o fui, de resto. Mas nunca poderia viver fora dela como escritor. Falta-me o dicionário da terra, a gramática da paisagem, o Espírito Santo do povo.