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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

16
Jul17

Os flagelados do vento leste - Manuel Lopes

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Doía-lhe ver as crianças metidas nas misérias deste mundo. Os homens podiam evitar isso. Fingir que não há sofrimentos no mundo, fingir que a vida não é o que é... Qualquer coisa assim... à custa de todos os sacrifícios, se fosse preciso... Quase odiou esses dois esqueletos que se afastavam. Surgiam, assim, no meio das suas fantasias. Essa brutal intromissão da realidade mostrava, por momentos, a inconsistência dos seus sonhos. O peso da vida estorvava-lhes o esvoaçar das asas...

 

 Os flagelados do vento leste, de Manuel Lopes não é uma leitura fácil. A razão é pelo vocabulário cabo-verdiano, mas pela dramática temática - a fome, de quem vive dependente dos elementos naturais, para a sua sobrevivência. Lembrou-me, frequentemente, de O Quinze de Rachel de Queiróz. Infelizmente, a fome e a pobreza são elementos universais.

 

(...) e as mulheres daqueles que não tinham coragem pensavam na fome que bateria primeiro às portas das mulheres dos que dividiam o seu milho com essa terra que nada lhes prometia, e cujos filhos, famintos, iriam um dia arastar-se sobre cada cova para desenterrar, ardidos, grão a grão, os milhares de grãos que os pais, sem dó, estavam enterrando agora...

 

Em Os flagelados do vento leste, vamos seguir os destinos dos diversos elementos da família do agricultor José Cruz, bem como dos seus vizinhos, quando as suas culturas são queimadas por um vento leste, aliado a períodos de secas. As personagens são desenvolvidas com mestria, gerando verdadeiras imagens universais, porque também são universais os sentimentos: coragem, desespero, bondade, crueldade...

 

Estranho, mas durante toda a leitura deste livro, vinha-me à mente a imagem de uma senhora de idade, no meio de terra queimada, a dizer "Primeiro foi o fogo, agora a fome." Pese embora os problemas, sinto-me agradecida por viver num Estado Social.

 

Mas não só, também pensava na esperança dos projectos de reflorestação de desertos. E por falar em projectos... tenho de consultar o meu saldo KIVA.

 

Os livros levam-me sempre por caminhos imprevisíveis.