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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

16
Jan16

(Novas) Cartas Portuguesas

Porque foi no final de ano e porque foi a correr, ainda não havia dito umas palavrinhas sobre as Cartas Portuguesas atribuídas a Soror Mariana Alcoforado

São cinco cartas que nunca saberemos se são verdadeiras, embora saibamos que a Soror Mariana Alcoforado e o seu romance com um oficial francês é uma história verídica. Já a autoria das cartas vem a ser discutida há muito. 

 

A jovem Mariana foi encerrada em convento por decisão de sua mãe. Na verdade, ela foi deixada em testamento (da mãe) ao Convento da Conceição. Uma prática comum no séc. XVII e se pensarmos bem, ainda hoje os filhos pagam pelos pecados dos pais.

 

A jovem Mariana perdeu-se de amores por um oficial francês com quem teve uma relação carnal. Mas até o que se passa num convento e sabe e o escândalo estalou. A família dela era bastante poderosa e não deve ter ficado muito contente pelo que o jovem terá voltado ao seu país. Não mais voltou. 

 

O que temos depois são 5 magníficas cartas de amor - dela - paixão, desilusão, súplica, desânimo, perdão, desespero, desprezo... está tudo lá. A crónica de um amor, do princípio ao fim e maravilhosamente escrito.

 

Depois, nada como entrar de cabeça nas Novas Cartas Portuguesas das três Marias: Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. 

 

 

As referências às 5 cartas e à Soror Mariana são frequentes e absolutamente maravilhosas. É prosa epistolar e poesia e algo mais. Em especial a poesia, tem-me obrigado a alguma ginástica mental. Mas o exercício faz bem ao cérebro.

 

Preciso de comprar uma cópia para a minha biblioteca. O livro é fascinante e puro empoderamento feminino.

02
Jan16

Nem eu me explico, nem tu me entendes

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Antes que me esqueça, tinha de dizer umas palavras sobre o livro recomendado com que terminei, na noite de 31 de Dezembro, o The Book Riot 2015 Read Harder Challenge

 

As primeiras 50 páginas foram difíceis. Eu gosto de livros de não ficção com bastante sustentação científica ou então necessito de conhecer bem o autor, de forma a confiar no que é escrito. Nenhuma das situações se aplicava. Mais, o primeiro capítulo está tão mal escrito, que achei que estava perante um péssimo augurio para um livro sobre comunicação (que não comunica) - cheio de frases feitas, parece ter sido a última coisa a ser escrita, para encher páginas.

 

Mas há medida que o livro evoluía, mais me reflectia nele - para o melhor e para o pior - e mais me obrigava a reflectir sobre a forma como comunicamos, sobre as ratoeiras da comunicação e sobre a linguagem corporal. 

 

Por exemplo, um estudo dos anos 80 estabeleceu a percentagem de importância dos diferentes factores de comunicação: palavras - 7%, tom de voz - 38% e linguagem corporal - 55%. O autor refere que mesmo os mais recentes estudos neurológicos, tenham dado maior percentagem à importância das palavras na comunicação, a verdade é que continua "o irmão pobre". 

 

Mais, fiquei absolutamente intrigada e fascinada com a existência dos "neurónios-espelho", localizados no córtex cerebral e que têm a "faculdade de provocar impulsos, tanto quando a pessoa observa o outro a fazer um movimento como quando é a própria pessoa que o faz". Por exemplo, quando repetimos o bocejo de outra pessoa. 

 

Quando terminei o livro, fiquei com a sensação que merecia uma releitura, com anotações e plano de intervenção pessoal. Mas se sentirem que devem saltar algumas páginas, não hesitem. No fundo, a falha do livro não é o conteúdo, é a ausência de uma edição.  

 

Nunca teria lido este livro se não fosse a recomendação da Andreia P. Obrigada!

24
Dez15

Guarani - José de Alencar

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José de Alencar (1829-1877) é um autor de referência da literatura brasileira, do período romântico. Segundo a Claire Scorzi, é um autor lido na escola. 

 

Os críticos referem que a obra de José de Alencar que se divide por três grupos: romance histórico com a temática do indianismo, o romance urbano muito em torno da temática do amor e da situação social e familiar da mulher e o romance regionalista representativo das diferentes regiões que dividiam o Brasil. 

 

Guarani é "o mito do bom selvagem, da pureza do americano em contraste com a dureza e a ambição desenfreada e sem escrúpulos do branco europeu".

 

A história situa-se no interior do Brasil, na segunda metade do séc. XVI. D. António de Mariz é um fidalgo português, movido por um código de honra da cavalaria. Tem uma filha angelical, Cecília, amada/disputada/adorada por três homens, cujos amores irão determinar o destino da história. 

Um desses homens é Peri que adora Cecília, como a personificação da virgem Maria na Terra e que tudo faz para a agradar e proteger. Cecília, uma jovem de 16 anos que não conhece a vida para além do domínio da casa onde vive, trata Peri como um animal de estimação. 

 

O segundo homem, D. Álvaro, ama Cecília e entretém a ideia de casar com esta, ainda por cima com o assentimento de seu pai. É amado por Isabel, prima de Cecília e uma mestiça que se suspeitava ser filha ilegítima de D. António e uma índia.

 

O terceiro, Loredano, um aventureiro que procura um tesouro escondido nas terras brasileiras e planeia matar toda a família, para poder possuir Cecília. 

 

Como se não bastasse este quarteto amoroso, temos ainda o filho de D. António que mata acidentalmente uma índia, o que determina o desejo de vingança de uma tribo violenta que irá invadir a casa senhorial.

 

Confesso que este não foi um dos meus livros preferidos, embora deseje continuar a ler as obras do autor. Embora destaque a superioridade intelectual do índio, este está sempre subjugado aos seus sentimentos por Cecília e esta é pouco mais que uma adolescente reduzida a ser bondosa, mas mimada e pouco consciente dos seus actos.

 

- Mas tu não és escravo!... - respondeu Cecília com um gesto de contrariedade-; tu és um amigo sincero e dedicado. Duas vezes me salvaste a vida; fazes impossíveis para me veres contente e satisfeita; todos os dias te arriscas a morrer por minha causa.

O índio sorriu.

- Que queres que Peri faça de sua vida, senhora?

- Quero que estime sua senhora e lhe obedeça, e aprenda o que ela lhe ensinar, para ser um cavalheiro como meu irmão D. Diogo e o Sr. Álvaro.

 

E num autor romântico não poderia faltar o tratamento da mulher tão característico: a angelical loura e o pecado original que pesa sobre todas as mulheres:

 Cecília era uma menina ingénua e inocente, que nem sequer tinha consciência do seu poder e do encanto de sua casta beleza; mas era filha de Eva, e não podia se eximir de um quase nada de vaidade.

 

Isto é um livro de aventuras. O que me impressionou no livro foi a imaginação do autor para criar situações.

Peri mostra-se sobre humano e genial. O plano dele para, sozinho e sem armas, matar centenas de índios da tribo que tenta tomar de assalto a casa senhorial é absolutamente brilhante e prendeu-me, página após página.

 

É pelo conjunto que desejo voltar a José de Alencar.

 

 

 

Obra em domínio público, disponível em pdf no Portal Domínio Público, do Governo Brasileiro.

05
Dez15

Hoje li 3 livros!

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Adorei! José Agualusa tem uma escrita límpida, a história era belíssima e as ilustrações fantásticas. Uma excelente escolha para um presente de Natal.

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Este apanhou-me de surpresa. Aldous Huxley? O livro é fantástico e a história (que terá feito para a sobrinha) muito divertida.

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Vale pelas maravilhosas ilustrações. No fundo, é a história da bela e do monstro.

 

Tive pena de (ainda) não conseguir ir ver a exposição do Júlio Pomar na BMAG, mas qual não é a minha surpresa, quando vou a sair e vejo o próprio a entrar, bem como Richard Zimler e Siza Vieira. Uau! Momento groupie.

03
Dez15

Flores - Afonso Cruz

Depois de ter lido o post da Cláudia, ali estava ele, na biblioteca a chamar por mim. Não resisti. 

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A história é deliciosa. Um senhor idoso, o Sr. Ulme, perdeu as suas memórias de infância e o seu vizinho decide ajuda-lo, procurando as pessoas que o conheciam. Esse vizinho (que gostaria de se chamar Kevin), procura a vida do Sr. Ulme, enquanto vai abandonando a sua: um casamento à beira do precipício, uma relação extraconjugal e uma rotina diária vazia de prazeres. Acreditem que não estou a saber fazer jus à história. 

Afonso Cruz consegue montar e desmontar a vivência humana de uma forma surpreendente e cativante. Li a primeira página depois do jantar e só parei na última. 

 

Porque viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias.

 

Não sei se por ter acabado de ler os Cadernos de Lanzarote (I), mas Afonso Cruz evoca-me Saramago. Não me refiro a uma qualquer análise literária (sobre a qual nada sei), mas a uma musicalidade ao ler um e outro. Ler Afonso Cruz é como estar com um dedo em riste a percorrer uma pauta musical imaginária. 

 

Outro paralelismo é sentido na acutilante crítica social/política, evidências que também este estaria muito bem num parlamento de escritores.

 

Concluo assim que a literatura contemporânea portuguesa vai bem e recomenda-se. 

01
Dez15

Selecção de lendas e narrativas - Alexandre Herculano

Depois da leitura de Viagens na Minha Terra - Almeida Garrett decidi ler também Alexandre Herculano. Não é uma leitura fácil porque a linguagem é densa e as descrições algo longas, por isso fui lendo os contos, em momentos de maior quietude.

O que quero dizer com linguagem densa? É ter páginas assim:

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Este título inclui: O castelo de Faria (1373), A abóbada (1401), O bispo negro (1130), A morte do Lidador (1170), De Jersey a Granville (1831), O alcaide de Santarém (950-961)

 

Para ler hoje (1 Dezembro), recomendo A abóbada que é um conto em que o nacionalismo é a personagem principal e o Mosteiro da Batalha o palco. 

O meu conto preferido foi De Jersey a Granville pelas hilariantes e muito pouco simpáticas referências aos ingleses: Um cão e três ingleses completavam a colecção dos animais inclusos entre as quatro tábuas da frágil embarcação.

Mas o que mais me marcou foi a pungente descrição do desterro que poderia, muito bem, ter uma leitura muito mais moderna:

O desterro é uma das mais profundas miserias humanas; mas a pobreza no desterrado é o tormento mais intoleravel do espirito, porque é um composto monstruoso de saudade, de humilhação, de abandono, de desesperança, que vos lembra cada dia, cada hora, cada instante, a vossa situação desgraçada; que vos recorda sem cessar que sois uma especie de Ahasvero, de judeu errante, que a maldicção de Deus guia, em meio do desprezo dos homens, dos vituperios, dos trabalhos, por uma peregrinação sem termo e sem horisonte. Tendes de experimentar a affronta e calar, os maus tractos e soffrer, a fome e a nudez e não ousar pedir uma esmola, porque o pobre estrangeiro é um ente médio entre o homem e o animal, a sua linguagem inintelligivel e ridicula, a sua dôr e o seu sentimento quasi um impossivel, o nome do seu paiz a fabula e o escarneo das gentes, sobre tudo se esse paiz é fraco, limitado e obscuro. Então vem o comparar tudo isso com os commodos e gasalhado do lar domestico, com o amor e amizade, que vos cercavam de suavidade o viver de outro tempo, e a comparação vos converte em fel e lagrymas o sangue mais puro das veias.

26
Nov15

O Fotógrafo e a Rapariga - Mário Cláudio

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Esta pequena novela tem tanto de belo como de perturbador.

Sobre a relação entre Alice Lidell (a Alice do País das Maravilhas) e Charles Dogson (que viria a apresentar-se com o pseudónimo de Lewis Carroll), leva-nos ao íntimo (ficcionado) destas duas personagens. Mas o que mais gostei foi que se tornou, pelas referências que são feitas, a leitura perfeita para quem escolheu 2015 para ler "Alice no País das Maravilhas" e "Alice no outro lado do espelho". Recomendo a triologia. 

 

A curiosidade levou-me a ler alguns textos pela internet sobre esta ligação. Um bom mistério é assim: há um diário (de Lewis Carroll) ao qual faltam algumas páginas, precisamente aquelas respeitantes ao período em que Lewis Carroll parece ter entrado em desfavor na  família de Alice. Teria ele pedido a mão em casamento da pequena de 11 anos? Ou na verdade andava atrás da governanta e da mãe?

 

Fiquei com imensa curiosidade de ler as primeiras obras da triologia, por Mário Cláudio: Boa noite, Senhor Soares / Retrato de Rapaz.

26
Nov15

Açucar, o pior inimigo - Richard P. Jacoby, Raquel Baldelmar

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Começo por dizer que sou particularmente exigente no que respeita a não ficção, especialmente ligada à saúde. Tenho um ódio de estimação aos livros que têm circulado de pseudo-ciência, em especial os que publicitam curas milagrosas associadas a dietas.

 

Tendo feito a advertência, não vos posso dizer que este é um dos casos. Não tenho conhecimentos suficientes para isso, mas há coisas que me arrepiam ver em livros de informação médica, como por exemplo:

"seria mais fácil para mim submeter-me à convenção médica e designa-lo como uma hipótese - um palpite informado, com base na observação e na minha experiência de cirurgião-, pois, de acordo com o paradigma médico, uma teoria é algo que pode ser desacreditado através de experiências laboratoriais, pelo que desafio qualquer pessoa a fazê-lo. Entretanto, enquanto aguarda pela burocracia médica para obter a confirmação, pode simplesmente cortar o açúcar da sua dieta e salvar-se.

 

Na minha opinião isto é arrogância que associo a charlatães. Basicamente o que o autor vos diz é: eu não chamo a isto hipótese - o que seria correcto, face ao facto de a única evidência ser "a minha observação" e a "minha experiência", mas como não há estudos científicos que o provem ou não provem, simplesmente façam o que eu digo. 

 

Isto não é científica, é pseudo-ciência.

 

Mais, vão encontrar "teorias" como a associação do açúcar a determinadas doenças como por exemplo o Alzheimer... páginas e páginas, cuja substância se resume a isto:

As doenças seguintes são as que provavelmente não associa à dieta ou ao açúcar; contudo, acredito que as evidências fundamentam que a sua origem está em consonância com a teoria da compressão global. 

Em suma, não há provas científicas, mas eu acredito e por isso deve ser verdade.   

 

Os autores recorrem frequentemente à fórmula das "imagens de cancro nas embalagens de cigarro", descrevendo as doenças mais terríveis para assustar o/a leitor/a.

No final, claro está, uma dieta que eu sumarizo: deixem o açúcar e comam vegetais. E já agora, bebam café com uma colher de manteiga, em vez do açúcar. (sim, leram bem e sim, é a base de uma outra dieta milagre... haja paciência)

 

Finalmente, o mesmo tipo de  informação está dispersa em distintos capítulos, tornando a leitura confusa. Falta-lhe estrutura e falta alguma capacidade de transmitir informação mais complexa de forma mais pedagógica. 

 

Para quem tem uma diabética na família e um historial de diabéticos extenso na história familiar, este livro foi uma desilusão.

20
Nov15

The Wild One - Danelle Harmon

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England, 1776: Lord Gareth de Montforte is known as an irresponsible rake with a heart of gold. When he takes a bullet for boldly thwarting a stagecoach robbery, he is stunned to discover that the beautiful young woman he has heroically rescued, Juliet Paige, is his deceased brother’s American fiancée, accompanied by her infant daughter. Despite his brother the duke's refusal to acknowledge Juliet, Gareth is determined to do right by the courageous woman who crossed an ocean to give her baby her rightful name. But Juliet is wary of marrying this black sheep aristocrat, even while she is hopelessly charmed by the dashing devil. Never has she met anyone who embraces life so thoroughly, who makes her laugh, who loves her so well. And, even when it seems the odds are against them, Juliet has absolute faith that Gareth will go beyond the call of duty, risking his life itself to give her and her daughter a home — and a love that will last a lifetime.

 

No dia em que este post foi escrito, o acesso a este livro era gratuito, na loja Amazon.com. 

 

Este é um género a que recorro para leituras no telemóvel e para esvaziar a cabeça. Em regra, a leitura é fluida, linear e básica e a resolução final é garantida. Os maus perdem, os bons têm o seu final feliz, tudo vai bem com o mundo. É a minha pilulazinha da felicidade instantânea, remédio garantido para esvaziar o cérebro.