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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

31
Dez17

Lidos em 2017

Não Ficção

1. Furiously Happy - Jenny Lawson [audiobook]

2. Porto Cartoon World Festival 2014 B

3. Lab Girl - Hope Jahren  [audiobook]

4. Perdidamente, Correspondência amorosa 1920-1925 - Florbela Espanca (organização Maria Lúcia Dal Farra). B

5. O árabe do futuro 1 - Riad Sattouf [Novela gráfica]  B

6. Um mundo infestado de demónios - Carl Sagan E

7. Capitãs de Abril - Ana Sofia Fonseca  B

8. Comer para controlar a diabetes - Joana Ramos Oliveira B

9. Porto Desconhecido & Insólito - Histórias que (provavelmente) nunca ouviu - Germano Silva B

10. Génesis - Sebastião Salgado B

11. A história das coisas - Annie Leonard B

12. Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência - David Marçal e Carlos Fiolhais B

13. Cleópatra - Stacy Schiff B

Pensar depressa e devagar - Daniel Kahneman  [a ler] B

 

Ficção

Casos em que o desafio foi esquecido: 

1. I Married a Billionaire - Melanie Marchande (ups! estava no tlm. e li sem me lembrar do desafio do ano; invoco em minha defesa que era a única coisa numa espera de horas).

2. A rainha das aves - Helen Ward E

Casos em que o desafio foi ignorado: 

3. A viúva e o papagaio - Virginia Woolf (lido a pedido da sobrinha, que me emprestou o livro)  Em

 

Novelas gráficas estrangeiras de ficção 

1. Democracia - Alecos Papadatos, Abraham Kawa e Annie Di Donna B

2. Maus - Art Spiegelman B

3. Anne Frank - biografia gráfica, Sid Jacobson & Ernie Cólon B

4. Alex + Ada #1,  Jonathan Luna, Sarah Vaughn Em

5. Alex + Ada #2,  Jonathan Luna, Sarah Vaughn Em

6. Saga, Vol. 3, Brian K. Vaughan, Fiona Staples Em

 

Portugal

1. Os passos em volta - Herberto Helder. B

2.O crime do Padre Amaro - Eça de Queiróz. E

3. Sermões - Padre António Vieira. E

4. Ana, uma investigação de Filipe Seems #1  - Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves [Novela gráfica] B

5. A História do Tesouro Perdido, uma investigação de Filipe Seems #2 - Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves [Novela gráfica] B

6. A Tribo Dos Sonhos Cruzados, uma investigação de Filipe Seems #3 - Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves [Novela gráfica] B 

7. As incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

8. As extraordinárias aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy II - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

9. Os vampiros - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B

10. As fantásticas aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy III - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

11. Os contos inéditos de Dog Mendonça e Pizza Boy - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

12. A madona - Natália Correia E

13. História da Beleza Fria - Teresa Veiga  E

14. O último Eça - Miguel Real E

15. Poesia/Prosa - Nuno Júdice E

16. Pedro Lembrando Inês - Nuno Júdice  E

17. A colecção privada de Acácio Nobre - Patrícia Portela  B 

18. A dama pé-de-cabra - Alexandre Herculano (conto)  E

19. A ruiva - Fialho de Almeida (conto)  E

20. Crónica dos bons malandros - Mário Zambujal  E 

21. Adoecer - Hélia Correia   E 

22. O espaço vazio - Dick Haskins   E

23. A pior banda do mundo, vol.1  B

24. A pior banda do mundo, vol. 2  B

25. O evangelho segundo Jesus Cristo - José Saramago  E

26. A criação do mundo - Miguel Torga E

27. Balada da praia dos cães - José Pires Cardoso E

28. A vida numa colher - Miguel Rocha B

29. A ilustre casa de Ramires - Eça de Queiróz  E

30. Odília - Patrícia Portela   E

 

Angola

1. O homem que parecia um domingo - José Eduardo Agualusa E

2. Estação das chuvas - José Eduardo Agualusa E

 

Brasil

1. Ninguém mais se perderá por Luba - Luiz Lopes Coelho (conto)  E

2. Tungstênio - Marcello Quintanilha [Novela gráfica] B

3. Talco de vidro - Marcello Quintanilha [Novela gráfica] B

4. A sucessora - Carolina Nabuco  B

5. Gabriela, Cravo e Canela - Jorge Amado  E

6. Capitães da Areia - Jorge Amado  B 

7. Dona Flor e seus dois maridos - Jorge Amado E

8. Dom Casmurro- Machado de Assis E

 

Cabo Verde

1. Os flagelados do vento leste - Manuel Lopes  B 

2. Os dois irmãos - Germano Almeida  B

O novíssimo testamento - Mário Lúcio Sousa [desisti]   E

 

Moçambique

1. Terra sonâmbula - Mia Couto   E

 

Guiné-Bissau

São Tomé e Príncipe

Timor Leste

 

B - Biblioteca

K - Kindle app (telemóvel e computador)

E - Estante

31
Dez17

E o último livro do ano foi...

odilia

Odília - Patrícia Portela

 

88 páginas de divertimento, jogos de imagens, de palavras e imagens ou palavras (ou será o contrário?)

 

Patrícia Portela surpreende-me sempre com os formatos dos seus livros e os incríveis mundos que cria. É sempre um prazer.

 

As musas nascem entre o dedo mindinho, o coração e o cérebro humanos. São muito pequeninas, muito microscópicas (...)/[[...]. Navegam de forma organizada e activa pelo cérebro, e para comunicar entre si fazem-no através de impulsos eléctricos e reacções químicas. Existem musas normais e musas confusas: As musas normais são tamanho S, M, L ou XL, inebriam, embriagam, enfeitiçam, inspiram, e aparecem antes, durante ou por causa do processo criativo, transformando uma ideia luminosa num corpo divino e tangível. Aparecem frequentemente nuas ou seminuas em vestes transparentes e são responsáveis pela poesia erótica, pelo delírio romântico e pela Música do Universo. São umas grandes convencidas e só usam roupa de marca e há quem diga que vivem em museus mas é mentira, só lá estão nas férias grandes e às segundas-feiras, quando os museus estão fechados... as musas confusas... as musas confusas são todas Odílias e parecem ser exactamente o mesmo mas são exactamente o contrário... em vez de andarem por aí a inspirar, procuram desesperadamente alguém que as inspire.

31
Dez17

Alegria

Há uns dois meses que não lia mais que um punhado de páginas. Por vezes acontece-me, a vida não me sai da cabeça e não há espaço para os livros.

 

Foi a urgência de querer cumprir o objectivo do  Clube dos Clássicos Vivos, que me fez obrigar-me a ler A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queiróz.

 

E bastou esse empurrão, a três dias do término do prazo, que me fez escapar para dentro de um livro, que devorei em dois dias. 

 

A ilustre casa de Ramires claramente não agradou a todos os membros do clube. Fui lendo os comentários, mas assim que comecei a ler, rapidamente percebi que seria um dos meus preferidos. Tivesse Eça terminado A ilustre casa de Ramires como terminou o Crime do Padre Amaro e ter-me-ia partido o coração. 

 

Apaixonei-me pelo fidalgo Gonçalo, com todas as suas imperfeições, incoerências, dissonâncias cognitivas. E quem nunca cedeu, no alinhamento das suas acções com os seus valores, atire a primeira pedra.

 

E mais não digo, que seria spoiller, e eu não quero terminar o ano com o pé esquerdo e os doces por fazer. Só queria vir, num pulinho, partilhar convosco a alegria pueril que é o amor pelos livros, que é sempre de partilhar.

 

Desejo-vos um excelente 2018, cheio de tudo que desejam.

29
Out17

A vida numa colher - Miguel Rocha

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Outubro está a ser um horrível mês de leituras. Cansaço, má gestão do meu tempo livre, falta de motivação. Como resultado, o único livro que terminei foi uma novela gráfica de um autor português, e alguns capítulos do Pensar Depressa e Devagar (que, alías, já deveria ter sido entregue na biblioteca).

 

A vida numa colher, de Miguel Rocha, foi um acaso, não conhecia o livro ou o autor, mas era o que procurava: novela gráfica de autores lusófonos. Descobriria depois que no Festival de BD da Amadora de 2004, venceu os prémios de Melhor Livro e Melhor Desenho. Não me surpreende de todo.

 

O que me surpreendeu foi o pano de fundo: Alentejo. Sim, leram bem, uma novela gráfica cuja história se centra num Alentejo pós-salazarista, que na sua agrura e no seu contexto social é, também, uma personagem. 

 

Olegário volta à aldeia para recuperar as terras do pai, de imediato se depara com oposição dos que ocuparam a terra, que havia ficado ao abandono. Depois, contra a agrura da mesma, sem que consiga fazer crescer nada, consegue (a custo) começar a plantar beterrabas.

 

Mas o que Olegário quer é um filho varão, enquanto vão nascendo as filhas, que condena a um isolamento que as torna "selvagens".

É aqui que tive alguns problemas como o livro. É que a forma de identificar este estado selvagem, foi através do identitário africano. E às tantas fiquei com a sensação de que estava perante um racismo latente, embora não tenha percebido se do autor ou da personagem. Será que estava a ver as filhas "selvagens" pelo prisma de um homem que vinha da guerra colonial?

 

Apesar desse questionamento, fiquei rendida ao desenho. 

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17
Set17

Terra Sonâmbula - Mia Couto

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JotaCartas 

 

Apesar de já ter terminado a leitura há algum tempo, este livro tem andado comigo, como um tardio travo na boca. Infelizmente, não pelas melhores razões. Perdura pelas imagens marcantes de um sofrimento que é tangível: os horrores de guerra, campos refugiados, fome, o desespero. 

 

Terra Sonâmbula situa Moçambique em 1975, o ano da sua independência de Portugal. Destruído por anos de guerra colonial, continuará em guerra civil até aos anos 90. 

 

A obra divide-se em duas narrativas paralelas (capítulos alternados). Começamos com o velho Tuahir e o jovem Muindinga a caminhar por uma estrada morta, que os leva até um autocarro queimado, onde se decidem instalar e fazer dele o seu refúgio. 

 

O autocarro está ainda cheio de corpos carbonizados e no seu exterior, um cadáver baleado, que tem junto a si uma mala com vários cadernos que constituem o diário de Kindzu (segunda narrativa) e que o jovem Muindinga vai lendo a Tuahir.

 

Tuahir resgatou o jovem Muindinga num campo de refugiados, onde já não esperavam que vivesse como resultado de comer mandioca, já que algumas variedades são tóxicas, especialmente quando consumidas cruas. Tal leva à morte ou danos cerebrais.

 

 

O jovem Muindinga não tem memória do seu passado e assim, vive o passado de Kindzu, enquanto sonha em encontrar os seus pais.

 

Mas a Terra Sonâmbula, em torno do autocarro, vai mudando e ambos acordam para uma nova paisagem, a cada dia. E assim Mia Couto nos vai levando pela história e cultura de Moçambique, entre magia, feitiçaria e superstições.

 

Como referi inicialmente, o livro marcou-me, seja pela beleza luminosa da escrita como pela negra realidade que ilumina.  Marcou-me ao ponto de me sentir motivada para incluir, de forma muito mais intencional, literatura com origem em países colonizados por Portugal. 

 

Por falar em línguas...

 

O meu ponto de partida começou na língua portuguesa, mas até essa acaba por ser um símbolo colonizador. Em Moçambique, por exemplo, a língua portuguesa pode ser a oficial, mas entre as suas línguas nativas estão o macua, o tsonga e o sena (as mais comuns). E a leitura de livros africanos, em língua portuguesa, não deixam de introduzir nas suas obras a riqueza de outros vocabulários nativos.

 

Estas línguas nativas pertencem a uma família linguística (língua bantu) que abarca mais de 600 línguas, faladas por cerca de 300 milhões de pessoas (o português tem cerca de 280 milhões falantes). 

03
Set17

O evangelho segundo Jesus Cristo

Assim que o silêncio voltou à casa, é tempo de ler Saramago. Já havia lido, há muitos anos, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, mas sempre soube que era um livro para releituras. 

 

Para os pontos-chaves desta leitura, partilho o fantástico resumo da Tatiana. Este vídeo deveria ser conteúdo obrigatório para as metas curriculares de português, prévio à leitura da obra. Os seus apontamentos, o entusiasmo... quem não desejaria ler o livro, depois de ver este vídeo?

 

Recordo-me que uma das minhas primeiras grandes leituras foi o Novo Testamento, no 4º ano da catequese, por isso teria eu uns 10 anos. A minha memória diz-me que gostei muito, embora não me diga onde foi parar o exemplar.

 

Para quem está menos familiarizado com os textos religiosos do cristianismo, o Novo Testamento consiste num conjunto de textos que teriam sido escritos após a crucifixação, precisamente no advento do cristianismo. Muitos deles, narrativas de apóstolos, que incluem (poucos) episódios da vida e morte de Jesus de Nazaré.

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O paralelo entre o Jesus dos textos religiosos e o Jesus dos registos históricos sempre me fascinou. Esta ateia sempre gostou deste Jesus de Nazaré, talvez porque sempre me foi apresentado com um percursor da igualdade social.

 

Por isso, uma obra como O Evangelho Segundo Jesus Cristo, alinha-se perfeitamente com as minhas preferências pessoais: uma narrativa sobre um tema que me fascina, uma abordagem invulgar a um tema massificado e a belíssima escrita de José Saramago.

 

Encontrei o meu mojo.