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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

18
Mar17

Capitães da Areia - Jorge Amado

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Pedro Bala, Dora, Professor, Gato, João Grande, Sem Pernas... personagens que jamais esquecerei.

 

Jorge Amado é absolutamente perfeito na construção de personagens. Na verdade, consegue de forma exemplar construir cada uma das personagens individuais, assim como a que é o seu colectivo "os capitães da areia".

 

É um livro violento e cru sobre a marginalidade infantil. Por vezes custa ver um certo romancear da violência, da pobreza e até da violação de mulheres, mas confesso que me chocou muito mais a forma como descreveu a ausência do amor.

 

Numa nota curiosa, também este livro está recomendado para o 3º ciclo, no Plano Nacional de Leitura. 

 

Capitães da Areia é o livro de Jorge Amado mais vendido no mundo inteiro. Publicado em 1937, teve a sua primeira edição apreendida e queimada em praça pública pelas autoridades do Estado Novo.

 

Agradeço imenso a quem, na caixa de comentários insistiu que lesse Capitães da Areia. Não fossem as vossas recomendações, com 3 outros livros do autor na estante, provavelmente iria adiar a leitura. Agora, não vou descansar enquanto não tiver o meu exemplar. 

 

17
Mar17

Gabriela, cravo e canela - Jorge Amado

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Antes de mais, tenho de agradecer à Bárbara que me incentivou a começar por Gabriela, cravo e canela (por não ter Capitães da Areia). 

 

O livro é absolutamente magnífico e, desde o momento em que peguei nele, não o consegui pousar, tendo-o lido num dia (ou dois, se considerarem que já me deitei às 2h00).

 

Gabriela, cravo e canela é uma história de vários amores e do amor a uma cidade. Há uma Baía que reconhecemos das telenovelas: os comerciantes, os coronéis, as amantes mantidas, os jagunços, um todo imaginário social que é absolutamente delicioso de ler.

Até há a jovem, que lê O crime do Padre Amaro, apesar de ser um livro considerado imoral. Também encontramos em Gabriela, cravo e canela uma crónica dos costumes.

 

A personagem Gabriela é absolutamente fantástica, a natureza no seu estado puro, com o progresso da cidade como pano de fundo. Há quem a tente mudar, educá-la, mas Gabriela é indomável, como o vento que acaba por contornar os edifícios, mas que não pode ser parado.

 

Gabriela chega à cidade e logo encontra trabalho com Nacib, um próspero comerciante de origem síria que, de imediato, fica rendido aos temperos da nova cozinheira. E quem diz temperos, diz a sua beleza, o seu cheiro a canela, a sua sensualidade e a forma carinhosa como o trata: moço bonito.

 

O cheiro de cravo,

a cor de canela,

eu vim de longe

vim ver Gabriela.

 

Um dos pontos fortes deste livro é, sem dúvida, a forma como Jorge Amado consegue cruzar o desenrolar da relação de Gabriela e Nacib como a evolução da sociedade local. 

 

Um ponto negativo (muito pequenino) é um pormenor no fim (que naturalmente não posso discutir convosco). Uma coisinha pequenina... que já está perdoada.

 

O livro é magnífico e merece muito ser lido.

05
Mar17

Natália Correia - A madona

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Natália Correia sempre foi uma personalidade pública que admirei pelo percurso: feminista, intelectual, poeta, ensaísta, romancista, promotora cultural, deputada, resistente do Estado Novo, editora condenada por ser instrumental em publicações como Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica Novas Cartas Portuguesas. 

 

Havia já lido alguns poemas, mas não me recordo de ter lido qualquer um dos seus romances. Talvez já lhe adivinhasse o grau de dificuldade. Ele existe, a leitura precisa de ser pausada e absorvida porque o nível de linguagem não é o básico e eu nunca fui muito fã de livros que utilizam fluxos de consciência.

 

Mas não posso dizer que a própria autora não me avisou, logo nas primeiras páginas:

É possível que estas palavras com as quais tardiamente traduzo os pensamentos que obscureciam a sua mente, soem como uma transposição poética. Mas as realidades psicológicas só se podem exprimir a rigor poeticamente porque, sob os factos da psique, palpitam os mitos. Falo portanto de sensações vivas que a minha própria experiência me permitiu decifrar, dando-me a certeza de que os mitos são incrustações da alma que os acidentes desta fazem surgir diante de nós.

 

Entre a aldeia de Briandos e as capitais europeias, vamos seguindo Branca, uma jovem virgem que, depois da morte do pai (na cama de uma prostituta) e com encorajamento da mãe, parte para a liberdade de uma vida parisiense, entre intelectuais e pseudo-intelectuais. Um deles é Miguel, com quem vive uma relação amorosa, mas infeliz. Essa infelicidade leva-os para Londres onde conhece outro amor: o Anjo, um dinamarquês.

 

Com nenhum deles encontra o amor sublime e avassalador que tanto parece almejar e parte sozinha pela Europa. 

 

E novamente o frio da partida. A insónia das gares. O amarrotar da camurça do tempo. Porque parto se a outra coisa que eu desejo não são países? Se continuo a desfolhar-me ao vento das viagens que restará de mim? A minha vida parou e eu continuo. 

 

Ao voltar a Briandos, procura-se em Manuel, um homem simples, primordial que julga ser a sua salvação, tanto da vida em permanente tristeza e insatisfação.

 

É um livro sobre os lugares que a sociedade atribui à mulher (aqui nos anos 60) e as lutas internas que estas têm na suas tentativas de libertação. 

 

As mulheres precisam de dinheiro para serem pessoas, mais que simplesmente mulheres. Acima de tudo estimo que sejas uma pessoa. Quero que sejas aquilo que eu não fui - e suspirava. - Para que não te aconteça...

Ela não falava para mim. Disputava-me os desígnios de meu pai que mesmo além do túmulo a empeciam. Falava na esperança de que ele a ouvisse e os seus ossos rangessem de impotência dentro do cofre de mogno que guardava agora o mísero espólio de toda a sua arrogância.

02
Mar17

Tungsténio & Talco de Vidro - Marcello Quintanilha

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Marcello Quintanilha é um artista brasileiro, considerado "como o grande cronista da banda desenhada brasileira" , que acumula o seu trabalho de desenhista a inquestionáveis qualidades de escrita.

 

Em Tungsténio temos um drama urbano, em que as histórias de quatro personagens se cruzam: um jovem traficante, um polícia, a mulher deste e ainda um velho sargento com o síndrome "sabe quem eu sou?".

 

O realismo da obra impressionou-me, tanto nos desenhos como na escrita. 

 

Tungsténio é o metal com o ponto de fusão mais alto que se conhece. Ele é o ponto de inflexão que porá à prova a capacidade dos personagens de forçar a dureza do metal do dia a dia a ponto de rompê-lo.

Marcello Quintanilha

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Talco de vidro é muito diferente, com a história concentrada em Rosângela, uma bem sucedida dentista, com uma vida aparentemente perfeita e que entra numa espiral de destruição pessoal, despoletada pelos ciúmes a uma prima. 

28
Fev17

Rendida às novelas gráficas de Filipe Melo e Juan Cavia - Os Vampiros

As aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy são divertidas, sem prescindir dos prémios que ganharam que atestam a sua qualidade. Mas Os Vampiros é uma novela gráfica sublime. 

 

Filipe Melo e Juan Cavia não nos poupam nada, ao tratar a guerra colonial. É a humanidade e desumanidade nos seus expoentes máximos. 

 

Nesta entrevista, Filipe Melo explica que "O título tem três fortes conotações: é uma famosa criatura mitológica, é o nome de um grupo de comandos verdadeiro que combateu na Guiné e é o título da icónica canção do Zeca Afonso, censurada pelo regime." 

vampiros_1 (1).pngFilipe Melo e Juan Cavia - Os Vampiros, 2 (1).jpg

27
Fev17

Rendida às novelas gráficas de Filipe Melo e Juan Cavia - Dog Mendonça e Pizza Boy

Como já tinha referido, um bibliotecário convenceu-me a dar uma oportunidade às histórias (incríveis, extraordinárias, fantásticas) de Dog Mendonça e Pizza Boy. Ainda bem que o fez. Achei piada ao primeiro volume. Ri-me com alguns pormenores (que não conto) e foram esses que me fizeram pegar no segundo (mais curiosidade que outra coisa). 

 

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Li-o quase todo, ainda na biblioteca e não consegui parar de rir. Os desenhos são incríveis e as piadas magníficas. Não imagino como seria possível traduzir a obra porque toda ela é cheia de piadas e trocadilhos da nossa cultura. 

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E quando o apocalipse, com todas as suas pragas, chegam a Lisboa, até a Nossa Senhora de Fátima entra ao barulho. 

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A colecção:

  • As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy
  • As Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy - Apocalipse
  • As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy
  • Os Contos Inéditos de Dog Mendonça & Pizzaboy

Divirtam-se! 

 

Avisos à navegação:

I - Estou sem paciência para pessoas a reclamar que não são livros "a sério".

II - Há muitos palavrões. 

26
Fev17

Carl Sagan - Um mundo infestado de demónios

Há cerca de um mês, peguei neste livro, numa esperança de encontrar a luz neste mundo infestado de demónios. Nunca pensei, que a minha geração iria temer o surgimento de um estado totalitário. Hoje, sinto que este é perigosamente possível, num mundo de Trump e Le Pen.

 

Acho que é bastante provável que a nossa geração venha a ser julgada como a mais imbecil dos tempos modernos - tínhamos a informação, preferimos o reality TV e criamos as condições para a nossa submissão ou implosão - escolham o vosso veneno.

 

O livro de Carl Sagan é de 1995 e incrivelmente presciente. Assustadoramente presciente. 

 

Um mundo infestado de demónios é sobre os meandros da nossa mente, da credibilidade, da compreensão humana. É sobre a ciência como empreendimento humano, mas também sobre os mitos, as superstições e as suas consequências.

 

Em Carl Sagan, a humanidade é sempre defendida.

 

Todos somos imperfeitos e criaturas da nossa época. Será justo julga-nos pelos padrões desconhecidos do futuro?

 

Mas a responsabilidade é igualmente nossa, pelo estado a que chegamos. Sagan oferece o pior de nós (caça às bruxas, inquisição, a distorção da realidade através da religião, da pseudo-ciência) e o melhor de nós (exemplos de magníficos empreendimentos na educação e ciência, ou de coragem intelectual.

 

E responsabiliza também a comunidade científica e a sua incapacidade para comunicar com os cidadãos: 

 

Ao contrário de Benjamin Franklin, a maioria dos cientistas sente que não lhes compete expor farsas pseudocientíficas - e, muito menos auto-ilusões defendidas com toda a veemência. Geralmente também não têm muito jeito para isso.

 

Acima de tudo, questiona a educação que estamos a dar às nossas crianças, para serem os cidadãos de amanhã. 

 

Quero parar a produção de alunos do ensino secundário amorfos, sem curiosidade, sem espírito crítico e falhos de imaginação. A nossa espécie necessita de, e merece, uma cidadania com espíritos bem despertos e uma compreensão básica do modo como o mundo funciona. 

A ciência, continuo a dizer, constitui um instrumento absolutamente essencial para qualquer sociedade que queira ter esperança em transitar para o próximo século com os seus valores fundamentais intactos - não apenas a ciência tal como é feita pelos cientistas, mas a ciência compreendida e acolhida por toda a comunidade humana. E, se não forem os cientistas a fazê-lo, quem o fará?

 

A  minha resposta é: todos nós. Como Sagan demonstra ao longo do livro é que existe uma teia de conexões entre a ciência e a democracia e todos estamos envolvidos: os políticos, os líderes religiosos, os meios de comunicação, os pais, os educadores, os voluntários sociais, os cidadãos. 

 

Cabe-nos a responsabilidade de compreender o mundo em que vivemos e os preconceitos para onde a nossa mente nos leva. Aquilo a que Sagan (generosamente) chama de preguiça intelectual: evita o trabalho de se ter de pensar. 

 

É por isso que leio. É por isso que leio Carl Sagan, que me obriga a pensar. E juro, que um dia ainda vou conseguir compreender o que é a teoria da relatividade e mecânica quântica. 

 

Por ora, vou tentar compreender como funciona o meu cérebro:

 

 

E o próximo de Carl Sagan, já na estante é:
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24
Fev17

Filipe Seems I, II, III



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Com A tribo dos sonhos cruzados termino a trilogia de investigações do detective Filipe Seems. Termino com chave de ouro porque é a minha preferida, embora seja a mais estranha que já li. Numa Lisboa pós-apocalíptica, Filipe Seems procura algo que não sabe bem o que é. Procura uma borboleta ou uma mulher. Ou sonha que procura? 

 

Todo o grafismo é difuso e às tantas tenho uma página em branco (outra vez) ou texto sem imagem. E apesar de tudo isso, faz perfeito sentido. É a linguagem nas suas diversas formas.

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Um excelente ponto de partida para ler novelas gráficas de autores nacionais. Na verdade, estou rendida às novelas/romances gráficas/os. 


A trilogia anda à venda por €12 (sim, os três) e tenho de me relembrar que as estantes estão cheias. 

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24
Fev17

Entre o ocidente e o mundo árabe

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O árabe do futuro é uma novela gráfica e autobiográfica de Riad Sattouf, filho de uma francesa e um sírio. Todo o primeiro volume (na foto) abrange a sua infância, marcada pela mudança para a Líbia com apenas 3 anos de idade. Essencialmente, é um livro sobre as diferenças culturais entre o ocidente (vida em Paris) e o mundo árabe (Líbia e Síria). 

 

Confesso que não foi uma das minhas leituras preferidas. Não consigo deixar de comparar com Persepolis e nessa comparação o primeiro sai a perder.