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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

17
Set17

Terra Sonâmbula - Mia Couto

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JotaCartas 

 

Apesar de já ter terminado a leitura há algum tempo, este livro tem andado comigo, como um tardio travo na boca. Infelizmente, não pelas melhores razões. Perdura pelas imagens marcantes de um sofrimento que é tangível: os horrores de guerra, campos refugiados, fome, o desespero. 

 

Terra Sonâmbula situa Moçambique em 1975, o ano da sua independência de Portugal. Destruído por anos de guerra colonial, continuará em guerra civil até aos anos 90. 

 

A obra divide-se em duas narrativas paralelas (capítulos alternados). Começamos com o velho Tuahir e o jovem Muindinga a caminhar por uma estrada morta, que os leva até um autocarro queimado, onde se decidem instalar e fazer dele o seu refúgio. 

 

O autocarro está ainda cheio de corpos carbonizados e no seu exterior, um cadáver baleado, que tem junto a si uma mala com vários cadernos que constituem o diário de Kindzu (segunda narrativa) e que o jovem Muindinga vai lendo a Tuahir.

 

Tuahir resgatou o jovem Muindinga num campo de refugiados, onde já não esperavam que vivesse como resultado de comer mandioca, já que algumas variedades são tóxicas, especialmente quando consumidas cruas. Tal leva à morte ou danos cerebrais.

 

 

O jovem Muindinga não tem memória do seu passado e assim, vive o passado de Kindzu, enquanto sonha em encontrar os seus pais.

 

Mas a Terra Sonâmbula, em torno do autocarro, vai mudando e ambos acordam para uma nova paisagem, a cada dia. E assim Mia Couto nos vai levando pela história e cultura de Moçambique, entre magia, feitiçaria e superstições.

 

Como referi inicialmente, o livro marcou-me, seja pela beleza luminosa da escrita como pela negra realidade que ilumina.  Marcou-me ao ponto de me sentir motivada para incluir, de forma muito mais intencional, literatura com origem em países colonizados por Portugal. 

 

Por falar em línguas...

 

O meu ponto de partida começou na língua portuguesa, mas até essa acaba por ser um símbolo colonizador. Em Moçambique, por exemplo, a língua portuguesa pode ser a oficial, mas entre as suas línguas nativas estão o macua, o tsonga e o sena (as mais comuns). E a leitura de livros africanos, em língua portuguesa, não deixam de introduzir nas suas obras a riqueza de outros vocabulários nativos.

 

Estas línguas nativas pertencem a uma família linguística (língua bantu) que abarca mais de 600 línguas, faladas por cerca de 300 milhões de pessoas (o português tem cerca de 280 milhões falantes). 

03
Set17

O evangelho segundo Jesus Cristo

Assim que o silêncio voltou à casa, é tempo de ler Saramago. Já havia lido, há muitos anos, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, mas sempre soube que era um livro para releituras. 

 

Para os pontos-chaves desta leitura, partilho o fantástico resumo da Tatiana. Este vídeo deveria ser conteúdo obrigatório para as metas curriculares de português, prévio à leitura da obra. Os seus apontamentos, o entusiasmo... quem não desejaria ler o livro, depois de ver este vídeo?

 

Recordo-me que uma das minhas primeiras grandes leituras foi o Novo Testamento, no 4º ano da catequese, por isso teria eu uns 10 anos. A minha memória diz-me que gostei muito, embora não me diga onde foi parar o exemplar.

 

Para quem está menos familiarizado com os textos religiosos do cristianismo, o Novo Testamento consiste num conjunto de textos que teriam sido escritos após a crucifixação, precisamente no advento do cristianismo. Muitos deles, narrativas de apóstolos, que incluem (poucos) episódios da vida e morte de Jesus de Nazaré.

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O paralelo entre o Jesus dos textos religiosos e o Jesus dos registos históricos sempre me fascinou. Esta ateia sempre gostou deste Jesus de Nazaré, talvez porque sempre me foi apresentado com um percursor da igualdade social.

 

Por isso, uma obra como O Evangelho Segundo Jesus Cristo, alinha-se perfeitamente com as minhas preferências pessoais: uma narrativa sobre um tema que me fascina, uma abordagem invulgar a um tema massificado e a belíssima escrita de José Saramago.

 

Encontrei o meu mojo.

21
Jul17

Lidos em 2017

Não Ficção

1. Furiously Happy - Jenny Lawson [audiobook]

2. Porto Cartoon World Festival 2014 B

3. Lab Girl - Hope Jahren  [audiobook]

4. Perdidamente, Correspondência amorosa 1920-1925 - Florbela Espanca (organização Maria Lúcia Dal Farra). B

5. O árabe do futuro 1 - Riad Sattouf [Novela gráfica]  B

6. Um mundo infestado de demónios - Carl Sagan E

7. Capitãs de Abril - Ana Sofia Fonseca  B

8. Comer para controlar a diabetes - Joana Ramos Oliveira B

9. Porto Desconhecido & Insólito - Histórias que (provavelmente) nunca ouviu - Germano Silva B

10. Génesis - Sebastião Salgado B

11. A história das coisas - Annie Leonard B

12. Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência - David Marçal e Carlos Fiolhais B

13. Cleópatra - Stacy Schiff B

Pensar depressa e devagar - Daniel Kahneman  [a ler] B

 

Ficção

Casos em que o desafio foi esquecido: 

1. I Married a Billionaire - Melanie Marchande (ups! estava no tlm. e li sem me lembrar do desafio do ano; invoco em minha defesa que era a única coisa numa espera de horas).

2. A rainha das aves - Helen Ward E

Casos em que o desafio foi ignorado: 

3. A viúva e o papagaio - Virginia Woolf (lido a pedido da sobrinha, que me emprestou o livro)

4. Saga, volume 3 (quando te emprestam um volume da novela gráfica Saga, não desperdiças a oportunidade)

 

Novelas gráficas estrangeiras de ficção 

1. Democracia - Alecos Papadatos, Abraham Kawa e Annie Di Donna B

2. Maus - Art Spiegelman B

3. Anne Frank - biografia gráfica, Sid Jacobson & Ernie Cólon B

4. Alex + Ada #1,  Jonathan Luna, Sarah Vaughn

5. Alex + Ada #2,  Jonathan Luna, Sarah Vaughn

 

Portugal

1. Os passos em volta - Herberto Helder. B

2.O crime do Padre Amaro - Eça de Queiróz. E

3. Sermões - Padre António Vieira. E

4. Ana, uma investigação de Filipe Seems #1  - Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves [Novela gráfica] B

5. A História do Tesouro Perdido, uma investigação de Filipe Seems #2 - Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves [Novela gráfica] B

6. A Tribo Dos Sonhos Cruzados, uma investigação de Filipe Seems #3 - Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves [Novela gráfica] B 

7. As incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

8. As extraordinárias aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy II - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

9. Os vampiros - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B

10. As fantásticas aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy III - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

11. Os contos inéditos de Dog Mendonça e Pizza Boy - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

12. A madona - Natália Correia E

13. História da Beleza Fria - Teresa Veiga  E

14. O último Eça - Miguel Real E

15. Poesia/Prosa - Nuno Júdice E

16. A colecção privada de Acácio Nobre - Patrícia Portela  B 

17. A dama pé-de-cabra - Alexandre Herculano (conto)  E

18. A ruiva - Fialho de Almeida (conto)  E

19. Crónica dos bons malandros - Mário Zambujal  E 

20. Adoecer - Hélia Correia   E 

21. O espaço vazio - Dick Haskins   E

22. A pior banda do mundo, vol.1  B

23. A pior banda do mundo, vol. 2  B

24. O evangelho segundo Jesus Cristo - José Saramago  E

25. A criação do mundo - Miguel Torga E

26. Balada da praia dos cães - José Pires Cardoso E

 

Angola

1. O homem que parecia um domingo - José Eduardo Agualusa E

2. Estação das chuvas - José Eduardo Agualusa E

 

Brasil

1. Ninguém mais se perderá por Luba - Luiz Lopes Coelho (conto)  E

2. Tungstênio - Marcello Quintanilha [Novela gráfica] B

3. Talco de vidro - Marcello Quintanilha [Novela gráfica] B

4. A sucessora - Carolina Nabuco  B

5. Gabriela, Cravo e Canela - Jorge Amado  E

6. Capitães da Areia - Jorge Amado  B 

7. Dona Flor e seus dois maridos - Jorge Amado E

8. Dom Casmurro- Machado de Assis E

 

Cabo Verde

1. Os flagelados do vento leste - Manuel Lopes  B 

2. Os dois irmãos - Germano Almeida  B

O novíssimo testamento - Mário Lúcio Sousa [desisti]   E

 

Moçambique

1. Terra sonâmbula - Mia Couto   E

 

Guiné-Bissau

São Tomé e Príncipe

Timor Leste

 

B - Biblioteca

K - Kindle app (telemóvel e computador)

E - Estante

18
Jul17

Os dois irmãos - Germano Almeida

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No meu mês dedicado a Cabo Verde, assinalei alguns autores que ia encontrando, pela Internet, identificados como "referência" da literatura cabo-verdiana. Germano de Almeida era um desses autores. 

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Escolhi Os dois irmãos, porque algures, li que seria a sua obra mais popular. 

 

Os dois irmãos é a história de um fratricídio, em que André mata o irmão (João) porque este cometeu adultério com a sua esposa. Parece um caso simples, mas não é:

Logo nos primeiros dos dois dias que tinha demorado o julgamento ele tinha sido colocado perante uma constatação de certa forma embaraçosa: depois do público conhecimento dos factos que estavam na origem do fratricídio, aquela luta tinha sido reputada como tão certa e tão absolutamente necessária que parecia que até ao fim continuava escapando ao entendimento de todo o povoado a razão porque André tinha levado tanto tempo a consumá-la.

 

É essa dúvida que assolará o juiz, durante todo o julgamento e é no decurso desse que se vai desenrolando um novelo de histórias, entre tensões sociais e sentimentos pessoais.

É também um retrato de uma sociedade que vive entre duas forças e choques, entre a tradição e a modernidade. Se por um lado temos a vida fechada da aldeia, por outro as intrusões dos seus filhos que começam a sentir-se puxados por uma vida exterior (emigração) moderna e cosmopolita.

 

Vou ser honesta, senti-me verdadeiramente puxada por este livro e não consegui parar de ler, até (também eu), saber o que tinha acontecido naquele intervalo de 3 semanas, em que André não matou o seu irmão.

16
Jul17

Os flagelados do vento leste - Manuel Lopes

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Doía-lhe ver as crianças metidas nas misérias deste mundo. Os homens podiam evitar isso. Fingir que não há sofrimentos no mundo, fingir que a vida não é o que é... Qualquer coisa assim... à custa de todos os sacrifícios, se fosse preciso... Quase odiou esses dois esqueletos que se afastavam. Surgiam, assim, no meio das suas fantasias. Essa brutal intromissão da realidade mostrava, por momentos, a inconsistência dos seus sonhos. O peso da vida estorvava-lhes o esvoaçar das asas...

 

 Os flagelados do vento leste, de Manuel Lopes não é uma leitura fácil. A razão é pelo vocabulário cabo-verdiano, mas pela dramática temática - a fome, de quem vive dependente dos elementos naturais, para a sua sobrevivência. Lembrou-me, frequentemente, de O Quinze de Rachel de Queiróz. Infelizmente, a fome e a pobreza são elementos universais.

 

(...) e as mulheres daqueles que não tinham coragem pensavam na fome que bateria primeiro às portas das mulheres dos que dividiam o seu milho com essa terra que nada lhes prometia, e cujos filhos, famintos, iriam um dia arastar-se sobre cada cova para desenterrar, ardidos, grão a grão, os milhares de grãos que os pais, sem dó, estavam enterrando agora...

 

Em Os flagelados do vento leste, vamos seguir os destinos dos diversos elementos da família do agricultor José Cruz, bem como dos seus vizinhos, quando as suas culturas são queimadas por um vento leste, aliado a períodos de secas. As personagens são desenvolvidas com mestria, gerando verdadeiras imagens universais, porque também são universais os sentimentos: coragem, desespero, bondade, crueldade...

 

Estranho, mas durante toda a leitura deste livro, vinha-me à mente a imagem de uma senhora de idade, no meio de terra queimada, a dizer "Primeiro foi o fogo, agora a fome." Pese embora os problemas, sinto-me agradecida por viver num Estado Social.

 

Mas não só, também pensava na esperança dos projectos de reflorestação de desertos. E por falar em projectos... tenho de consultar o meu saldo KIVA.

 

Os livros levam-me sempre por caminhos imprevisíveis.

 

09
Jul17

Cleópatra - Stacy Schiff

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Cheguei a este Cleópatra porque desejava ler Stacy Schiff, vencedora do Prémio Putitzer de Biografia (em 2000, com Vera, Mrs. Vladimir Nabokov; tinha sido anteriormente nomeada com a biografia de Saint-Exupéry). A minha biblioteca só tinha Cleópatra e, na verdade, como resistir ao chamamento de tal personagem?

 

Do início ao fim, Stacy Schiff recorda-nos que a reconstituição da biografia de Cleópatra é dificultada pela forma como a historia é reescrita pelos vencedores e os seus historiadores oficiais. Na verdade, a sua biografia é feita de relatos dispersos, a partir de 60 anos, após a sua morte, por quem nunca a conheceu.

 

Mais, perante o estatuto das mulheres, na sociedade alexandrina, incomparável em Roma e incompreensível para os romanos, não ajudou que a sua história fosse contada por homens.

 

Existem muitas estátuas de homens a matar leões mas, se os leões fossem escultores, talvez as estátuas fossem muito diferentes.

Ésopo

 

Começo a biografia e recebo a minha primeira lição de história: "os ptolomeus eram, na realidade, gregos macedónios, o que faz de Cleópatra tão egípcia como Elizabeth Taylor". E termino-a com a revelação de que a história da morte por serpente venenosa tão improvável como apetecível, num mundo masculino muito habituado a associar mulheres a serpentes. 

 

A Cleópatra que me é revelava é altamente culta (o historiador Plutarco atribui-lhe fluência em 9 línguas), astuta, inteligente e incrivelmente fascinante. 

 

Stacy Schiff, ao confrontar de forma sistemáticas as diferentes fontes, forma um retrato consistente, mesmo quando lhe aponta as inconsistências, reforçando a credibilidade do seu trabalho de investigação. 

 

Acabei com a sensação que tinha lido uma obra magnífica (devorada em 4 dias) e a prometer-me que não irei esquecer-me de incluir mais biografias no meu leque de leituras.