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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

06
Jan18

Empatia

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Empathy isn’t just listening, it’s asking the questions whose answers need to be listened to. Empathy requires inquiry as much as imagination. Empathy requires knowing you know nothing. Empathy means acknowledging a horizon of context that extends perpetually beyond what you can see (...)

Empathy means realizing no trauma has discrete edges. Trauma bleeds. Out of wounds and across boundaries. Sadness becomes a seizure. (...)

Empathy comes from the Greek empatheia - em (intro) and pathos (feeling) - a penetration, a kind of travel. It suggests you enter another person´s as you´d enter another country (...). 

 

 Leslie Jamison, The Empathy Exams: Essays

01
Jan18

A ler

Na minha colecção de 30 Grandes Génios da Literatura Universal, este é o único livro escrito por uma mulher. Provavelmente distracção do editor, que se deixou enganar pelo pseudónimo de Mary Ann Evans (1819-1880).

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Alfinetadas à parte, nem vos digo quando descobri que George Eliot era um pseudónimo para uma escritora. Seria algo embaraçoso. Há demasiado tempo que está na minha lista de autoras a ler, na verdade por causa de Middlemarch.

 

Mas era O moinho à beira do rio, um calhamaço de 512 páginas, que estava na estante, quando me levantei esta madrugada por causa de uma insónia.

29
Dez17

A ilustre casa de Ramires - Eça de Queiróz

Finalmente comecei a ler A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queiróz, para o Clube dos Clássicos Vivos.

 

Quando li o ensaio de Miguel Real, o Último Eça, registei que uma ordem de leitura, para um Eça Humanista, seria:

1º A cidade e as serras

2º As cartas de Fradique Mendes

3º A ilustre casa de Ramires.

 

Porém, o Clube dos Clássicos Vivos trocou-me as voltas, primeiro com a leitura de O crime do Padre Amaro e agora com A ilustre casa de Ramires que, segundo Miguel Real: 

lendo A  ilustre casa de Ramires, lendo a descrição do ambiente social da Feitosa e de Oliveira, retornamos 25 anos atrás, e de novo encontramos toda a trama de "O crime do Padre Amaro".

 

Afinal, esta tudo ligado. 

 

O início de A ilustre casa de Ramires é hilariante. O sarcasmo com que Eça vai descrevendo a perfeita casta de nobres Ramires tem um perfeito culminar na imagem de um deles, tão nobre e patriota, em plena batalha e "com os dois pulsos a esguichar de sangue, bradando alegremente ao Mestre: "D. Paio Peres, Tavira é nossa! Real, real por Portugal!"

 

Mas o que gostei mesmo foi da imagem seguinte: "O velho Egas Ramires, fechado na sua torre, com a levadiça erguida..." E porquê? Por causa de uma mulher, ora... que queria do lado de fora. 

 

De imediato pensei que seria muito bom, poder morar num castelo com uma torre, içar a levadiça e fechar o mundo lá fora. 

08
Set17

Terra Sonâmbula - Mia Couto

Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho.

Crença dos habitantes de Matimati

 

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A primeira página que tenho para ler, neste pequeno livro, é precisamente um conjunto de 3 frases/citações. 

 

Nunca, senti que uma citação fosse uma tão importante introdução à obra, como esta que vos transcrevo. Esta Terra Sonâmbula, é Moçambique e o título acompanhado pela citação faz adivinhar tanto a instabilidade (de não saber em que Moçambique vamos acordar) como a magia. 

 

Pois bem, a mala está pronta. Viajemos...

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04
Ago17

Eu obrigo-me

Há quem considere que, com tantos livros, tantos que é impossível ler todos numa vida... é muito parvo obrigar-mo-nos a ler, seja o que for. 

 

Eu discordo e por isso, de vez em quando, desafio-me a afunilar as leituras, dentro de um género literário, um género (identidade), uma nacionalidade ou até um grupo de nacionalidades. Por isso, passei um ano a ler mulheres estou a ler apenas literatura de ficção lusófona em 2017.

 

Eu obrigo-me porque os livros surpreendem-me.

 

Case in point...

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Vi-o inúmeras vezes e ignorei-o outras tantas porque pensei se fosse sobre uma banda rock, meia dúzia de trintões falhados, em tour pelo país. Mas obriguei-me porque este é um ano para ler novelas gráficas portuguesas. 

 

Uau... Não é nada do que eu pensava. Rico, poético, com magníficas referências literárias.

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E a delícia de encontrar um Borges, em O Declínio dos Hábitos de Leitura:

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O autor que me perdoe as horríveis fotos do seu magnífico trabalho.

 

Ainda vou nas primeiras 70 páginas, mas já percebi que este se tornará um dos favoritos. Cada par de páginas é um micro mundo dentro de uma cidade sem nome. E são esses micromundos, com extraordinárias personagens, que tornam este livro tão delicioso. 

 

Obrigada, querida biblioteca municipal.

19
Jul17

Sentimento

_Valha-nos Deus, chamem o médico, chamem o médico,

(...)

_Não chamam nada, na minha morte mando eu,

 

Claro está que a velha não podia dizer "Na minha vida mando eu", porém, com aquele trocadilho, estava a fazer uma clara alusão à vida que ela não vivera e por que sempre tivera curiosidades, sempre desejara experimentar, mesmo escondida atrás das rezas e dos terços, porém tal reacção era uma amostragem de todo o seu descontentamento, uma provocação e uma cobrança do que ela tinha na alma e em mente e que a alma e a mente nunca buscaram consenso... 

 

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03
Jun17

Razões incrivelmente estúpidas para não ler um livro

A de hoje: ter interiorizado que era um livro sobre a doença porque o título era "Adoecer". O que ajudou a isto? Que o livro tenha sido comprado há 7 anos, somente pelo nome da autora - Hélia Correia. É o primeiro livro que leio dela.

 

Eu venho a um encontro pessoal, desses que não consentem testemunhas. Na verdade, conheço esta mulher. Não a criei. Sei mais a seu respeito do que sei sobre as minhas personagens. Pisei já muito chão que ela pisou, toquei em coisas, onde teve as mãos. Dormi junto a lugares onde dormiu. Nada dela me é estranho. De algum modo, as nossas vidas já se confundiram pois o tema do duplo, o doppelgänger, estava inscrito em nós como um padrão. Se subo agora o matagal da encosta não é porque me falte o seu horror. É que, tornando-se isto numa história, precisarei de uma noção de fim. 

 

Esta mulher, é Elizabeth Siddal e é a modelo de um dos meus quadros preferidos.

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E esta hein?

21
Mar17

Dia Mundial da Poesia #1

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Quero dizer-te uma coisa simples: a tua

ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não

magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,

por isso, de deixar alguns sinais - um peso

nos olhos, no lugar da tua imagem, e

um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes

tivessem roubado o tacto. São estas as formas 

do amor, podia dizer-te; e acrescentar que

as coisas simples também podem ser

complicadas, quando nos damos conta da

diferença entre o sonho e a realidade. Porém,

é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que

os dias correm mais depressa, e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,

quando a tua voz me chama de dentro de

mim - e me faz responder-te uma coisa simples,

como dizer que a tua ausência me dói. 

 

21
Fev17

Diversidade na leitura e na língua portuguesa

Um dos objectivos a que me propus em 2017 foi literatura em língua portuguesa, independentemente do país de origem das/os autoras/es. 

 

Queria, em especial ler autores que andavam a ficar (não intencionalmente) adiados: Jorge Amado, Nassar, José Agualusa, Mia Couto, Carolina Nabuco; queria ler autores de língua portuguesa, de países africanos; queria voltar aos clássicos da língua portuguesa e ler alguns dos prémios de língua portuguesa; queria continuar a ler escritoras portuguesas.

 

Em suma, a lista é extensa. 

 

Ontem, decidi pegar num livro de José Eduardo Agualusa: Estação das Chuvas, "uma biografia romanceada de Lídia Carmo Ferreira, poetisa e historiadora angolana, misteriosamente desaparecida em Luana em 1992". 

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De imediato, sou "confrontada" com inúmeras palavras novas, como quicombo (uma espécie de madeira), xitaca (pequena quinta), retinta, cuamatas...

Para algumas, existem notas de rodapé, de forma a que a leitora portuguesa não se sinta perdida. Mas tem de ser assim? Sou da opinião que não. 

Apesar de o português ser a língua oficial de Angola, existem diversas outras línguas nacionais e, segundo o que li, mesmo essas têm diversos dialectos. Traduzir in extremis tudo para o português de Portugal, estaríamos, na verdade a perder a riqueza da linguagem, que deveria enriquecer (passe a redundância) a nossa experiência de leitura.

 

Por outro lado, há confesso um desconforto na leitura de expressões como "preta retinta" ou "cabrita", embora com a plena consciência de que estou a ler sobre os finais dos anos 70, em Angola, em que o racismo era uma realidade institucionalizada.