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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

03
Jun17

Razões incrivelmente estúpidas para não ler um livro

A de hoje: ter interiorizado que era um livro sobre a doença porque o título era "Adoecer". O que ajudou a isto? Que o livro tenha sido comprado há 7 anos, somente pelo nome da autora - Hélia Correia. É o primeiro livro que leio dela.

 

Eu venho a um encontro pessoal, desses que não consentem testemunhas. Na verdade, conheço esta mulher. Não a criei. Sei mais a seu respeito do que sei sobre as minhas personagens. Pisei já muito chão que ela pisou, toquei em coisas, onde teve as mãos. Dormi junto a lugares onde dormiu. Nada dela me é estranho. De algum modo, as nossas vidas já se confundiram pois o tema do duplo, o doppelgänger, estava inscrito em nós como um padrão. Se subo agora o matagal da encosta não é porque me falte o seu horror. É que, tornando-se isto numa história, precisarei de uma noção de fim. 

 

Esta mulher, é Elizabeth Siddal e é a modelo de um dos meus quadros preferidos.

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E esta hein?

21
Mar17

Dia Mundial da Poesia #1

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Quero dizer-te uma coisa simples: a tua

ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não

magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,

por isso, de deixar alguns sinais - um peso

nos olhos, no lugar da tua imagem, e

um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes

tivessem roubado o tacto. São estas as formas 

do amor, podia dizer-te; e acrescentar que

as coisas simples também podem ser

complicadas, quando nos damos conta da

diferença entre o sonho e a realidade. Porém,

é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que

os dias correm mais depressa, e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,

quando a tua voz me chama de dentro de

mim - e me faz responder-te uma coisa simples,

como dizer que a tua ausência me dói. 

 

21
Fev17

Diversidade na leitura e na língua portuguesa

Um dos objectivos a que me propus em 2017 foi literatura em língua portuguesa, independentemente do país de origem das/os autoras/es. 

 

Queria, em especial ler autores que andavam a ficar (não intencionalmente) adiados: Jorge Amado, Nassar, José Agualusa, Mia Couto, Carolina Nabuco; queria ler autores de língua portuguesa, de países africanos; queria voltar aos clássicos da língua portuguesa e ler alguns dos prémios de língua portuguesa; queria continuar a ler escritoras portuguesas.

 

Em suma, a lista é extensa. 

 

Ontem, decidi pegar num livro de José Eduardo Agualusa: Estação das Chuvas, "uma biografia romanceada de Lídia Carmo Ferreira, poetisa e historiadora angolana, misteriosamente desaparecida em Luana em 1992". 

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De imediato, sou "confrontada" com inúmeras palavras novas, como quicombo (uma espécie de madeira), xitaca (pequena quinta), retinta, cuamatas...

Para algumas, existem notas de rodapé, de forma a que a leitora portuguesa não se sinta perdida. Mas tem de ser assim? Sou da opinião que não. 

Apesar de o português ser a língua oficial de Angola, existem diversas outras línguas nacionais e, segundo o que li, mesmo essas têm diversos dialectos. Traduzir in extremis tudo para o português de Portugal, estaríamos, na verdade a perder a riqueza da linguagem, que deveria enriquecer (passe a redundância) a nossa experiência de leitura.

 

Por outro lado, há confesso um desconforto na leitura de expressões como "preta retinta" ou "cabrita", embora com a plena consciência de que estou a ler sobre os finais dos anos 70, em Angola, em que o racismo era uma realidade institucionalizada. 

18
Fev17

...

Os disparates, as mistificações, a irreflexão, as fraudes e os desejos disfarçados de factos não se limitam a magia de salão e a conselhos ambíguos sobre assuntos sentimentais. Infelizmente, impregnam as questões políticas, sociais, religiosas e económicas em todos os países.

 

Carl Sagan

Um mundo infestado de demónios

17
Fev17

Violência na televisão e as crianças

Até parece que é um livro de puericultura, mas não. Porém, não resisto à partilha de um segundo trecho. Advirto que a primeira frase é um exemplo de "confusão entre correlação e causa": 

 

(...) as crianças que vêem programas de televisão violentos têm tendência para serem mais violentas quando crescem. Mas foi a televisão a provocar a violência ou as crianças mais violentas preferem ver programas violentos? Muito provavelmente ambas as afirmações são verdadeiras. Os defensores da violência na televisão afirmam que qualquer pessoa consegue estabelecer a distinção entre televisão e realidade. Mas os programas infantis de sábado de manhã apresentam uma média de 25 actos de violência por hora. Pelo menos isto torna as crianças menos sensíveis à agressão e à crueldade aleatória. E, se é possível implantar falsas recordações nos cérebros dos adultos impressionáveis, que estaremos a implantar nos nossos filhos quando os expomos a cerca de 100 000 actos de violência antes de terminarem a escola primária?

 

Carl Sagan

Um mundo infestado de demónios

 

Recordo agora que este livro foi escrito em 1995.

 

Auto-link: Há livros de auto-ajuda e depois há Carl Sagan (para pais)

06
Fev17

A ler clássicos para refinar a arte dos insultos

Ler o Sermão de Santo António aos Peixes do Padre António Vieira, como adulta, é no mínimo uma experiência interessante e divertida. 

 

Aliás, o Padre António Vieira é uma das personagens mais fascinantes da nossa história: defendeu os índios e a abolição da escravatura durante a colonização do Brasil, defendeu os judeus durante a inquisição e foi tão crítico do próprio sacerdócio que teve problemas com a Inquisição.

 

Para as/os mais esquecidas/os, o sermão é de 1654 e foi proferido no Brasil, e por causa dele, o Padre António Vieira teve de fugir do país em poucos dias. Neste sermão, os peixes surgem como metáforas para diversos vícios dos colonizadores portugueses.

 

Por isso, não é surpresa nenhuma que tenha aprendido um refinado insulto, apenas chamando uma pessoa de polvo:

- não tem coluna vertebral;

- usa camuflagem e cobre as presas de tinta;

- usa os seus tentáculos para agarrar as presas num "abraço" mortal.

 

Ora, como conclui o Padre António Vieira, o polvo é pior que Judas.

 

P.S. - O Padre António Vieira nasceu a 06/02/1608

20
Jan17

Uma parvoíce que se revelou uma boa surpresa

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Comprei O Último Eça de Miguel Real convencida que era um romance. Não me perguntem porquê, porque não tenho resposta. Custou apenas €3.00.

Este ano, ao separar os livros "elegíveis" para 2017, enquanto tentava perceber o que realmente tenho, olhei para ele com mais atenção e tomei consciência que era um ensaio sobre as obras dos últimos anos da vida do autor. 

 

Logo decidi que iria parelhar a leitura deste com a do Crime do Padre Amaro

Ontem, ao ler algumas páginas na diagonal, fiquei completamente agarrada. É fascinante.

 

Particularmente instrutiva, foi a leitura das diferentes propostas de periodização da obra de Eça de Queiróz, por parte dos estudiosos da literatura queiroziana. 

Assim, o romântico na juventude, depois revolucionário e panfletário de estilo naturalista-realista até 1880 (publicação de O Mandarim, 3ª versão de O Crime do Padre Amaro), fase de indecisão, de novas leituras e influências com abandono do naturalismo puro até 1888 (Os Maias), o verdadeiro Eça finalmente revelar-se-ia a si próprio nas obras constantes da última fase (1888-1900), já compatibilizado, pela idade, pelo casamento, pela paternidade, pela adesão ao idealismo, pelo estatuto social e profissional (cônsul de 1ª classe em Paris, não na tropical Havana, na industrial Newcastle ou na comercial Bristol), pelas novas amizades (grupo de "Os Vencidos da Vida"), com os antigos valores do velho Portugal.

 

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Não tenho dúvidas que encontrei neste O Último Eça de Miguel Real, as bases para uma leitura mais intencional (e adulta) de Eça de Queiróz.

14
Jan17

Perdidamente (correspondência amorosa 1920-1925) - Florbela Espanca

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Que pobre aquisição tu fazes, meu amigo querido! A desta mulher criança, sensitiva a doer-se sempre ao mais leve contacto que a magoe, ao mais leve choque que a fira. 

 

Carta de Florbela Espanca a António Guimarães

05/03/1920

 

Tu dizes não saber onde vou buscar as minhas variadíssimas considerações a propósito de todas as coisas. É tão simples! Tenho a cultura suficiente para compreender as coisas e para as ver na realidade como elas devem ser vistas, e não me julgo muito estúpida para que sobre elas eu não possa construir esses complicados edifícios, todos de símbolos e raciocínios que tanto te assustam. (...) Nasci sensitiva e assim hei-de morrer, muito provavelmente...

Carta de Florbela Espanca a António Guimarães

07/03/1920