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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

04
Ago17

Eu obrigo-me

Há quem considere que, com tantos livros, tantos que é impossível ler todos numa vida... é muito parvo obrigar-mo-nos a ler, seja o que for. 

 

Eu discordo e por isso, de vez em quando, desafio-me a afunilar as leituras, dentro de um género literário, um género (identidade), uma nacionalidade ou até um grupo de nacionalidades. Por isso, passei um ano a ler mulheres estou a ler apenas literatura de ficção lusófona em 2017.

 

Eu obrigo-me porque os livros surpreendem-me.

 

Case in point...

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Vi-o inúmeras vezes e ignorei-o outras tantas porque pensei se fosse sobre uma banda rock, meia dúzia de trintões falhados, em tour pelo país. Mas obriguei-me porque este é um ano para ler novelas gráficas portuguesas. 

 

Uau... Não é nada do que eu pensava. Rico, poético, com magníficas referências literárias.

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E a delícia de encontrar um Borges, em O Declínio dos Hábitos de Leitura:

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O autor que me perdoe as horríveis fotos do seu magnífico trabalho.

 

Ainda vou nas primeiras 70 páginas, mas já percebi que este se tornará um dos favoritos. Cada par de páginas é um micro mundo dentro de uma cidade sem nome. E são esses micromundos, com extraordinárias personagens, que tornam este livro tão delicioso. 

 

Obrigada, querida biblioteca municipal.

19
Jul17

Sentimento

_Valha-nos Deus, chamem o médico, chamem o médico,

(...)

_Não chamam nada, na minha morte mando eu,

 

Claro está que a velha não podia dizer "Na minha vida mando eu", porém, com aquele trocadilho, estava a fazer uma clara alusão à vida que ela não vivera e por que sempre tivera curiosidades, sempre desejara experimentar, mesmo escondida atrás das rezas e dos terços, porém tal reacção era uma amostragem de todo o seu descontentamento, uma provocação e uma cobrança do que ela tinha na alma e em mente e que a alma e a mente nunca buscaram consenso... 

 

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03
Jun17

Razões incrivelmente estúpidas para não ler um livro

A de hoje: ter interiorizado que era um livro sobre a doença porque o título era "Adoecer". O que ajudou a isto? Que o livro tenha sido comprado há 7 anos, somente pelo nome da autora - Hélia Correia. É o primeiro livro que leio dela.

 

Eu venho a um encontro pessoal, desses que não consentem testemunhas. Na verdade, conheço esta mulher. Não a criei. Sei mais a seu respeito do que sei sobre as minhas personagens. Pisei já muito chão que ela pisou, toquei em coisas, onde teve as mãos. Dormi junto a lugares onde dormiu. Nada dela me é estranho. De algum modo, as nossas vidas já se confundiram pois o tema do duplo, o doppelgänger, estava inscrito em nós como um padrão. Se subo agora o matagal da encosta não é porque me falte o seu horror. É que, tornando-se isto numa história, precisarei de uma noção de fim. 

 

Esta mulher, é Elizabeth Siddal e é a modelo de um dos meus quadros preferidos.

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E esta hein?

21
Mar17

Dia Mundial da Poesia #1

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Quero dizer-te uma coisa simples: a tua

ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não

magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,

por isso, de deixar alguns sinais - um peso

nos olhos, no lugar da tua imagem, e

um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes

tivessem roubado o tacto. São estas as formas 

do amor, podia dizer-te; e acrescentar que

as coisas simples também podem ser

complicadas, quando nos damos conta da

diferença entre o sonho e a realidade. Porém,

é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que

os dias correm mais depressa, e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,

quando a tua voz me chama de dentro de

mim - e me faz responder-te uma coisa simples,

como dizer que a tua ausência me dói. 

 

21
Fev17

Diversidade na leitura e na língua portuguesa

Um dos objectivos a que me propus em 2017 foi literatura em língua portuguesa, independentemente do país de origem das/os autoras/es. 

 

Queria, em especial ler autores que andavam a ficar (não intencionalmente) adiados: Jorge Amado, Nassar, José Agualusa, Mia Couto, Carolina Nabuco; queria ler autores de língua portuguesa, de países africanos; queria voltar aos clássicos da língua portuguesa e ler alguns dos prémios de língua portuguesa; queria continuar a ler escritoras portuguesas.

 

Em suma, a lista é extensa. 

 

Ontem, decidi pegar num livro de José Eduardo Agualusa: Estação das Chuvas, "uma biografia romanceada de Lídia Carmo Ferreira, poetisa e historiadora angolana, misteriosamente desaparecida em Luana em 1992". 

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De imediato, sou "confrontada" com inúmeras palavras novas, como quicombo (uma espécie de madeira), xitaca (pequena quinta), retinta, cuamatas...

Para algumas, existem notas de rodapé, de forma a que a leitora portuguesa não se sinta perdida. Mas tem de ser assim? Sou da opinião que não. 

Apesar de o português ser a língua oficial de Angola, existem diversas outras línguas nacionais e, segundo o que li, mesmo essas têm diversos dialectos. Traduzir in extremis tudo para o português de Portugal, estaríamos, na verdade a perder a riqueza da linguagem, que deveria enriquecer (passe a redundância) a nossa experiência de leitura.

 

Por outro lado, há confesso um desconforto na leitura de expressões como "preta retinta" ou "cabrita", embora com a plena consciência de que estou a ler sobre os finais dos anos 70, em Angola, em que o racismo era uma realidade institucionalizada. 

18
Fev17

...

Os disparates, as mistificações, a irreflexão, as fraudes e os desejos disfarçados de factos não se limitam a magia de salão e a conselhos ambíguos sobre assuntos sentimentais. Infelizmente, impregnam as questões políticas, sociais, religiosas e económicas em todos os países.

 

Carl Sagan

Um mundo infestado de demónios

17
Fev17

Violência na televisão e as crianças

Até parece que é um livro de puericultura, mas não. Porém, não resisto à partilha de um segundo trecho. Advirto que a primeira frase é um exemplo de "confusão entre correlação e causa": 

 

(...) as crianças que vêem programas de televisão violentos têm tendência para serem mais violentas quando crescem. Mas foi a televisão a provocar a violência ou as crianças mais violentas preferem ver programas violentos? Muito provavelmente ambas as afirmações são verdadeiras. Os defensores da violência na televisão afirmam que qualquer pessoa consegue estabelecer a distinção entre televisão e realidade. Mas os programas infantis de sábado de manhã apresentam uma média de 25 actos de violência por hora. Pelo menos isto torna as crianças menos sensíveis à agressão e à crueldade aleatória. E, se é possível implantar falsas recordações nos cérebros dos adultos impressionáveis, que estaremos a implantar nos nossos filhos quando os expomos a cerca de 100 000 actos de violência antes de terminarem a escola primária?

 

Carl Sagan

Um mundo infestado de demónios

 

Recordo agora que este livro foi escrito em 1995.

 

Auto-link: Há livros de auto-ajuda e depois há Carl Sagan (para pais)

06
Fev17

A ler clássicos para refinar a arte dos insultos

Ler o Sermão de Santo António aos Peixes do Padre António Vieira, como adulta, é no mínimo uma experiência interessante e divertida. 

 

Aliás, o Padre António Vieira é uma das personagens mais fascinantes da nossa história: defendeu os índios e a abolição da escravatura durante a colonização do Brasil, defendeu os judeus durante a inquisição e foi tão crítico do próprio sacerdócio que teve problemas com a Inquisição.

 

Para as/os mais esquecidas/os, o sermão é de 1654 e foi proferido no Brasil, e por causa dele, o Padre António Vieira teve de fugir do país em poucos dias. Neste sermão, os peixes surgem como metáforas para diversos vícios dos colonizadores portugueses.

 

Por isso, não é surpresa nenhuma que tenha aprendido um refinado insulto, apenas chamando uma pessoa de polvo:

- não tem coluna vertebral;

- usa camuflagem e cobre as presas de tinta;

- usa os seus tentáculos para agarrar as presas num "abraço" mortal.

 

Ora, como conclui o Padre António Vieira, o polvo é pior que Judas.

 

P.S. - O Padre António Vieira nasceu a 06/02/1608