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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

11
Set17

A estrada morta

Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.

Terra Sonâmbula - Mia Couto

 

 

 

03
Set17

A noite

Porém, a noite, calma e distante, alheada dos seres e das coisas, com essa suprema indiferença que imaginamos ser do universo, ou a outra, absoluta, do vazio que restar, se algo o vazio pode ser, quando estiver cumprido, o último fim de tudo, a noite ignorava o sentido e a ordem razoável que parecem reger este mundo nas horas em que ainda acreditamos ter sido ele feito para receber-nos, e à nossa loucura.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo - José Saramago

19
Jul17

Sentimento

_Valha-nos Deus, chamem o médico, chamem o médico,

(...)

_Não chamam nada, na minha morte mando eu,

 

Claro está que a velha não podia dizer "Na minha vida mando eu", porém, com aquele trocadilho, estava a fazer uma clara alusão à vida que ela não vivera e por que sempre tivera curiosidades, sempre desejara experimentar, mesmo escondida atrás das rezas e dos terços, porém tal reacção era uma amostragem de todo o seu descontentamento, uma provocação e uma cobrança do que ela tinha na alma e em mente e que a alma e a mente nunca buscaram consenso... 

 

1

 

28
Abr17

Capitãs de Abril - os cravos

Que fantástico, este pequeno livro.

 

 

 

- Então, e precisam de alguma coisa? Como é que posso ajudar?

- Se tiver um cigarrinho... Um cigarrinho calhava bem.

A mulher deita males à vida, tantos anos a vender tabaco e agora nem um maço. Se fumasse, ao menos teria um cigarro no bolso, assim nem réstia de nicotina e as lojas estão todas encerradas.

- Bem gostaria de lhe dar um, mas nunca fumei... Olhe, tome lá um cravo que tanto se oferece a uma senhora como a um senhor.

O soldado agradece num sorriso, estende a mão para apanhar o cravo e arruma-o no cano da G3. Dia de alegria, a arma como jarra. Celeste gosta da idea, antes flores que balas. Num ápice, distribui o molho inteiro pelos militares com quem se cruza, os cravos do "Franjinhas" nas armas do Exército. 

28
Abr17

Capitãs de Abril - Ana Sofia Fonseca

 

A família não tinha pé-de-meia, mas teve engenho para sentar os quatros filhos nos bancos da escola. Todas as manhãs, horas a pé até à ardósia mais próxima, ao sol e à chuva, pés descalços e lobos no recreio. O pai vai mudando de colocação e a família acaba por ir parar à Marinha Grande. Mas nada livra o rapaz do pesadelo da infância - numa das primárias, à conta de não ter sapatos, a professora condenou-o à rua. A dor desse dia fundeou no mais profundo da alma, décadas a fio, volta e meia havia de acordar a sonhar-se de farda número 1 e pés descalços.

09
Abr17

Este país

A dúvida que ainda tenho é saber se continua a passar-se alguma coisa no país, mesmo que tenhamos passado por uma revolução, por uma contra-revolução, e por marés em que direita e esquerda vão mantendo a ilusão de um ciclo lunar, umas vezes com a ideologia mais baixa, deixando ver na areia da política todo o lixo que os petroleiros vão limpando dos seus depósitos, ao longo da nossa memória do que foi a revolução, que já foi, Deus a tenha em bom recato, e aos livros subversivos também, que hoje já não valem nada, nem sequer em feiras de alfarrábios.

O anjo da tempestade
Nuno Júdice

 

 

04
Abr17

Poesia no lado prosa

 

Embora me pareça que não haja uma única eternidade, mas muitas mais, e em cada uma teremos de levar nova vida mortal não tanto para reparar, como para repetir, os erros que cometemos nalguma outra, porque é nossa essência sermos o que somos, sem margem para profunda reparação.

 

Ler Nuno Júdice é ir embalada pela linguagem, em vez de pela história.

08
Mar17

As mulheres

(...) As mulheres precisam de dinheiro para serem pessoas, mais que simples mulheres. Acima de tudo estimo que sejas uma pessoa. Quero que sejas aquilo que eu não fui - e suspirava. - Para que não te aconteça...

 

A madona - Natália Correia

25
Fev17

Os livros

Este objecto barato permite-nos interrogar o passado e obter respostas exactas, utilizar a sabedoria da nossa espécie, compreender o ponto de vista dos outros, e não apenas dos que detêm o poder, partilhar - com os melhores professores - a compreensão, dolorosamente obtida a partir da natureza, dos maiores espíritos que jamais existiram, extraída de todo o planeta e de toda a nossa história. Permitem que pessoas há muito mortas falem dentro das nossas cabeças. São pacientes quando nós somos lentos a entender, permitem-nos rever as partes difíceis tantas vezes quantas queremos e nunca criticam as nossas falhas. Os livros são a chave para compreender o mundo e participar numa sociedade democrática.

 

Carl Sagan - Um mundo infestado de demónios

 

18
Fev17

...

Os disparates, as mistificações, a irreflexão, as fraudes e os desejos disfarçados de factos não se limitam a magia de salão e a conselhos ambíguos sobre assuntos sentimentais. Infelizmente, impregnam as questões políticas, sociais, religiosas e económicas em todos os países.

 

Carl Sagan

Um mundo infestado de demónios