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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

16
Jan18

Os primeiros livros de 2018

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O moinho à beira do rio - George Elliot (pseudónimo de Mary Ann Evans)

Quis começar o ano com um clássico que há muito queria ler. Quer dizer, na verdade queria ler Middlemarch, mas este era o que estava na estante e por isso levou preferência. Tornou-se um dos meus clássicos preferidos.

Não me arrependi. Nos dias 1 e 2 de Janeiro li as 500 páginas numa assentada, absolutamente embrenhada no campo inglês de inícios do séc. XIX. E se gostaram de Stout (To Kill a Mockingbird), vão adorar Maggie. 

A história acompanha a infância e chegada à vida adulta de Maggie e Tom, dois filhos de um moleiro, ambos a tentar ultrapassar as suas circunstâncias.

É uma história fascinante sobre as barreiras que as mulheres tinham de enfrentar numa cultura patriarcal, em que não era suposto serem inteligentes independentes e espirituosas. As personagens são complexas e dinâmicas e no final, pese embora a crítica da própria autora, em relação aos romances da época - demasiado generosos em relação às suas personagens - ela própria fornece um leque de personagens que, nos piores momentos, demonstram o melhor de si (até as mais improváveis). 

 

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Um estudo em vermelho - Arthur Conan Doyle

 

Decidi ler todas as histórias de Sherlock Homes, pela sua data de publicação.  Estou a fazer um grande esforço para não os ler de uma assentada as pequenas novelas.

É fascinante pensar que Arthur Conan Doyle recebeu uma chuva de críticas quando "matou" a sua personagem. O jornal onde publicava, teria perdido 20000 assinantes. Mais ainda, pensar nesse tipo de paixões por literatura (embora Arthur Conan Doyle considerasse Sherlock Holmes uma distracção da escrita de livros maiores) ou arte (lembro-me das polémicas exposições de arte moderna, no início do séc. XX que levavam milhares a galerias e a agressões físicas pelas "ofensas" à arte).

 

No primeiro conto, somos apresentadas a Watson e Sherlock Holmes e às circunstâncias que os juntaram. É o primeiro caso que os junta definitivamente.

 

Voltar aos policiais é um puro conforto pois, num mundo tão incerto, promete-me a suprema justiça, precisamente no último capítulo. Mais ou menos enviesada, ela está lá.

 

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A conspiração - Dan Brown

 

Comprei este livro numa loja social, pensando que seria excelente "moeda de troca" para outro livro. Decidi ler quando percebi que não lia Dan Brown desde O Código Da Vinci - que eu adorei. 

 

Dan Brown é uma mestria a criar suspense. Literalmente voei nos capítulos, para saber: o que encontraram, que descoberta fizeram, o que acontece a esta personagem... Os capítulos (por vezes de apenas uma página) saltam entre a perspectiva de diversos narradores, a uma velocidade que oscila entre o vertiginoso e o aborrecimento de morte. 

Aí está o problema deste livro - as personagens são fantásticas, a história e o enquadramento é genial (e para alguém que gosta de ciência e tecnologia, garanto que é um embalo), mas o livro torna-se repetitivo entre as narrativas.Tem quase 600 páginas, mas claramente há umas 200 que estão a mais.

 

Ainda assim, adorei revisitar Dan Brown. Um dia destes, pego noutro. Alguma recomendação?

 

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The Governess Affair - Courtney Milan 

No meio da intensidade emocional dos ensaios de Empathy Exams, precisava de uma pausa rápida e emocionalmente distante e isso foi uma novela, a custo zero, na aplicação Kindle, de uma autora de romances históricos, associada a personagens femininas fortes. 

Foi também assim que li o The Duchess War (na altura grátis), que me lembro de ter gostado e por isso voltei a Courtney Milan.

Não foi o melhor romance que li, mas também não foi o pior.

Estou com saudades de ler romances "de cordel", com um final feliz garantido, e providencialmente interrompido, antes que o dia-a-dia os leve a uma taxa de divórcios de 70%. 

Por acaso caiu num nicho que gosto de ler, em romances - casamentos por conveniência. Não me perguntem porquê, deve haver alguma explicação psicológica e certamente envolverá Freud. 

 

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Os hóspedes - Sarah Waters

 

Foi o booktube que me levou a esta autora. Pelos comentários percebi que tem vários romances situados na Inglaterra vitoriana, com personagens femininas fortes e lésbicas. 

 

Queria ler Fingersmith, que a colocou na shorlist dos prémios Booker e Orange, mas a biblioteca tinha Os hóspedes, e por isso foi esse o primeiro.

 

Os hóspedes, situa-nos na Inglaterra da década de 1920, após a 1ª Grande Guerra Mundial (e apesar de omisso na história, após a pandemia da gripe espanhola (1918), que terá dizimado cerca de 50-100 milhões de pessoas). 

Por essas duas circunstâncias, famílias como a de Frances Wray e sua mãe, vêm-se sozinhas, entre os seus mortos e com dificuldades financeiras. Para tentar pagar as dívidas, decidem aceitar um casal de hóspedes, que irá alterar as suas vidas de uma forma imprevisível (e que não vos posso contar, porque é metade da história).

 

Sarah Water descreve de forma magistral a tensão da vivência num espaço apertado. Os hábitos, as novas rotinas, os novos sons, essa tensão permanente que existe quando pessoas são forçadas a viver juntas, seja porque circunstâncias. 

As relações entre as personagens também obedecem a esse estado de tensão crescente em que vamos, página a página, aguardando pela ruptura do elástico, que geralmente trás consigo dor. (Credo.. de onde vieram estas metáforas pseudo-poéticas?)

Definitivamente uma autora a revisitar. 

 

Adorei esta primeira quinzena de leituras. Trouxe-me tudo que queria para este ano: leituras "de conforto" (romances e policiais/thrillers), novas autoras, diversidade e clássicos "obrigatórios". 

31
Dez17

Lidos em 2017

Não Ficção

1. Furiously Happy - Jenny Lawson [audiobook]

2. Porto Cartoon World Festival 2014 B

3. Lab Girl - Hope Jahren  [audiobook]

4. Perdidamente, Correspondência amorosa 1920-1925 - Florbela Espanca (organização Maria Lúcia Dal Farra). B

5. O árabe do futuro 1 - Riad Sattouf [Novela gráfica]  B

6. Um mundo infestado de demónios - Carl Sagan E

7. Capitãs de Abril - Ana Sofia Fonseca  B

8. Comer para controlar a diabetes - Joana Ramos Oliveira B

9. Porto Desconhecido & Insólito - Histórias que (provavelmente) nunca ouviu - Germano Silva B

10. Génesis - Sebastião Salgado B

11. A história das coisas - Annie Leonard B

12. Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência - David Marçal e Carlos Fiolhais B

13. Cleópatra - Stacy Schiff B

Pensar depressa e devagar - Daniel Kahneman  [a ler] B

 

Ficção

Casos em que o desafio foi esquecido: 

1. I Married a Billionaire - Melanie Marchande (ups! estava no tlm. e li sem me lembrar do desafio do ano; invoco em minha defesa que era a única coisa numa espera de horas).

2. A rainha das aves - Helen Ward E

Casos em que o desafio foi ignorado: 

3. A viúva e o papagaio - Virginia Woolf (lido a pedido da sobrinha, que me emprestou o livro)  Em

 

Novelas gráficas estrangeiras de ficção 

1. Democracia - Alecos Papadatos, Abraham Kawa e Annie Di Donna B

2. Maus - Art Spiegelman B

3. Anne Frank - biografia gráfica, Sid Jacobson & Ernie Cólon B

4. Alex + Ada #1,  Jonathan Luna, Sarah Vaughn Em

5. Alex + Ada #2,  Jonathan Luna, Sarah Vaughn Em

6. Saga, Vol. 3, Brian K. Vaughan, Fiona Staples Em

 

Portugal

1. Os passos em volta - Herberto Helder. B

2.O crime do Padre Amaro - Eça de Queiróz. E

3. Sermões - Padre António Vieira. E

4. Ana, uma investigação de Filipe Seems #1  - Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves [Novela gráfica] B

5. A História do Tesouro Perdido, uma investigação de Filipe Seems #2 - Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves [Novela gráfica] B

6. A Tribo Dos Sonhos Cruzados, uma investigação de Filipe Seems #3 - Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves [Novela gráfica] B 

7. As incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

8. As extraordinárias aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy II - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

9. Os vampiros - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B

10. As fantásticas aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy III - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

11. Os contos inéditos de Dog Mendonça e Pizza Boy - Filipe Melo e Juan Cavia [Novela gráfica] B 

12. A madona - Natália Correia E

13. História da Beleza Fria - Teresa Veiga  E

14. O último Eça - Miguel Real E

15. Poesia/Prosa - Nuno Júdice E

16. Pedro Lembrando Inês - Nuno Júdice  E

17. A colecção privada de Acácio Nobre - Patrícia Portela  B 

18. A dama pé-de-cabra - Alexandre Herculano (conto)  E

19. A ruiva - Fialho de Almeida (conto)  E

20. Crónica dos bons malandros - Mário Zambujal  E 

21. Adoecer - Hélia Correia   E 

22. O espaço vazio - Dick Haskins   E

23. A pior banda do mundo, vol.1  B

24. A pior banda do mundo, vol. 2  B

25. O evangelho segundo Jesus Cristo - José Saramago  E

26. A criação do mundo - Miguel Torga E

27. Balada da praia dos cães - José Pires Cardoso E

28. A vida numa colher - Miguel Rocha B

29. A ilustre casa de Ramires - Eça de Queiróz  E

30. Odília - Patrícia Portela   E

 

Angola

1. O homem que parecia um domingo - José Eduardo Agualusa E

2. Estação das chuvas - José Eduardo Agualusa E

 

Brasil

1. Ninguém mais se perderá por Luba - Luiz Lopes Coelho (conto)  E

2. Tungstênio - Marcello Quintanilha [Novela gráfica] B

3. Talco de vidro - Marcello Quintanilha [Novela gráfica] B

4. A sucessora - Carolina Nabuco  B

5. Gabriela, Cravo e Canela - Jorge Amado  E

6. Capitães da Areia - Jorge Amado  B 

7. Dona Flor e seus dois maridos - Jorge Amado E

8. Dom Casmurro- Machado de Assis E

 

Cabo Verde

1. Os flagelados do vento leste - Manuel Lopes  B 

2. Os dois irmãos - Germano Almeida  B

O novíssimo testamento - Mário Lúcio Sousa [desisti]   E

 

Moçambique

1. Terra sonâmbula - Mia Couto   E

 

Guiné-Bissau

São Tomé e Príncipe

Timor Leste

 

B - Biblioteca

K - Kindle app (telemóvel e computador)

E - Estante

31
Dez17

E o último livro do ano foi...

odilia

Odília - Patrícia Portela

 

88 páginas de divertimento, jogos de imagens, de palavras e imagens ou palavras (ou será o contrário?)

 

Patrícia Portela surpreende-me sempre com os formatos dos seus livros e os incríveis mundos que cria. É sempre um prazer.

 

As musas nascem entre o dedo mindinho, o coração e o cérebro humanos. São muito pequeninas, muito microscópicas (...)/[[...]. Navegam de forma organizada e activa pelo cérebro, e para comunicar entre si fazem-no através de impulsos eléctricos e reacções químicas. Existem musas normais e musas confusas: As musas normais são tamanho S, M, L ou XL, inebriam, embriagam, enfeitiçam, inspiram, e aparecem antes, durante ou por causa do processo criativo, transformando uma ideia luminosa num corpo divino e tangível. Aparecem frequentemente nuas ou seminuas em vestes transparentes e são responsáveis pela poesia erótica, pelo delírio romântico e pela Música do Universo. São umas grandes convencidas e só usam roupa de marca e há quem diga que vivem em museus mas é mentira, só lá estão nas férias grandes e às segundas-feiras, quando os museus estão fechados... as musas confusas... as musas confusas são todas Odílias e parecem ser exactamente o mesmo mas são exactamente o contrário... em vez de andarem por aí a inspirar, procuram desesperadamente alguém que as inspire.

31
Dez17

Alegria

Há uns dois meses que não lia mais que um punhado de páginas. Por vezes acontece-me, a vida não me sai da cabeça e não há espaço para os livros.

 

Foi a urgência de querer cumprir o objectivo do  Clube dos Clássicos Vivos, que me fez obrigar-me a ler A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queiróz.

 

E bastou esse empurrão, a três dias do término do prazo, que me fez escapar para dentro de um livro, que devorei em dois dias. 

 

A ilustre casa de Ramires claramente não agradou a todos os membros do clube. Fui lendo os comentários, mas assim que comecei a ler, rapidamente percebi que seria um dos meus preferidos. Tivesse Eça terminado A ilustre casa de Ramires como terminou o Crime do Padre Amaro e ter-me-ia partido o coração. 

 

Apaixonei-me pelo fidalgo Gonçalo, com todas as suas imperfeições, incoerências, dissonâncias cognitivas. E quem nunca cedeu, no alinhamento das suas acções com os seus valores, atire a primeira pedra.

 

E mais não digo, que seria spoiller, e eu não quero terminar o ano com o pé esquerdo e os doces por fazer. Só queria vir, num pulinho, partilhar convosco a alegria pueril que é o amor pelos livros, que é sempre de partilhar.

 

Desejo-vos um excelente 2018, cheio de tudo que desejam.

03
Dez17

Calendário do Advento Literário #3

Foto de Daria Shevtsova - Unsplash

 

Dois audio livros.

Furiosamente-Feliz2

 

Furiosamente Feliz e Lab Girl foram os dois livros que mais me marcaram em 2017. Ouvi ambos pelas vozes das suas autoras e isso fez toda a diferença.

O registo de ambas, não poderia ser mais diverso: Jenny Lawson fala sobre a sua saúde mental, de forma hilariante, usando os episódios mais caricatos da sua vida, para enquadrar o que é viver com doenças mental. Hope Jahren fez um livro de memórias de uma incrível virtuosidade, que torna a solidão algo físico, de tão palpável.

 

Ri-me com Jenny Lawson e chorei com Hope Jahren. 

 

Foram os livros que mais me marcaram, pela melhor percepção (mais humilde) do que é viver com uma doença mental.

Ao interiorizar o conceito de doença crónica, associado à doença mental, percebi que tenho de ser mais presente no dia-a-dia de algumas pessoas. Percebi que deveria substituir a minha vontade de querer resolver as coisas, por uma presença que aceita a doença como parte da pessoa.

 

É por isso que continuo a idolatrar livro (mesmo numa versão fetichizante). O potencial que tem enquanto ferramenta para gerar empatia, e dessa forma humanizar, é verdadeiramente emocionante.

29
Out17

A vida numa colher - Miguel Rocha

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Outubro está a ser um horrível mês de leituras. Cansaço, má gestão do meu tempo livre, falta de motivação. Como resultado, o único livro que terminei foi uma novela gráfica de um autor português, e alguns capítulos do Pensar Depressa e Devagar (que, alías, já deveria ter sido entregue na biblioteca).

 

A vida numa colher, de Miguel Rocha, foi um acaso, não conhecia o livro ou o autor, mas era o que procurava: novela gráfica de autores lusófonos. Descobriria depois que no Festival de BD da Amadora de 2004, venceu os prémios de Melhor Livro e Melhor Desenho. Não me surpreende de todo.

 

O que me surpreendeu foi o pano de fundo: Alentejo. Sim, leram bem, uma novela gráfica cuja história se centra num Alentejo pós-salazarista, que na sua agrura e no seu contexto social é, também, uma personagem. 

 

Olegário volta à aldeia para recuperar as terras do pai, de imediato se depara com oposição dos que ocuparam a terra, que havia ficado ao abandono. Depois, contra a agrura da mesma, sem que consiga fazer crescer nada, consegue (a custo) começar a plantar beterrabas.

 

Mas o que Olegário quer é um filho varão, enquanto vão nascendo as filhas, que condena a um isolamento que as torna "selvagens".

É aqui que tive alguns problemas como o livro. É que a forma de identificar este estado selvagem, foi através do identitário africano. E às tantas fiquei com a sensação de que estava perante um racismo latente, embora não tenha percebido se do autor ou da personagem. Será que estava a ver as filhas "selvagens" pelo prisma de um homem que vinha da guerra colonial?

 

Apesar desse questionamento, fiquei rendida ao desenho. 

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17
Set17

Terra Sonâmbula - Mia Couto

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JotaCartas 

 

Apesar de já ter terminado a leitura há algum tempo, este livro tem andado comigo, como um tardio travo na boca. Infelizmente, não pelas melhores razões. Perdura pelas imagens marcantes de um sofrimento que é tangível: os horrores de guerra, campos refugiados, fome, o desespero. 

 

Terra Sonâmbula situa Moçambique em 1975, o ano da sua independência de Portugal. Destruído por anos de guerra colonial, continuará em guerra civil até aos anos 90. 

 

A obra divide-se em duas narrativas paralelas (capítulos alternados). Começamos com o velho Tuahir e o jovem Muindinga a caminhar por uma estrada morta, que os leva até um autocarro queimado, onde se decidem instalar e fazer dele o seu refúgio. 

 

O autocarro está ainda cheio de corpos carbonizados e no seu exterior, um cadáver baleado, que tem junto a si uma mala com vários cadernos que constituem o diário de Kindzu (segunda narrativa) e que o jovem Muindinga vai lendo a Tuahir.

 

Tuahir resgatou o jovem Muindinga num campo de refugiados, onde já não esperavam que vivesse como resultado de comer mandioca, já que algumas variedades são tóxicas, especialmente quando consumidas cruas. Tal leva à morte ou danos cerebrais.

 

 

O jovem Muindinga não tem memória do seu passado e assim, vive o passado de Kindzu, enquanto sonha em encontrar os seus pais.

 

Mas a Terra Sonâmbula, em torno do autocarro, vai mudando e ambos acordam para uma nova paisagem, a cada dia. E assim Mia Couto nos vai levando pela história e cultura de Moçambique, entre magia, feitiçaria e superstições.

 

Como referi inicialmente, o livro marcou-me, seja pela beleza luminosa da escrita como pela negra realidade que ilumina.  Marcou-me ao ponto de me sentir motivada para incluir, de forma muito mais intencional, literatura com origem em países colonizados por Portugal. 

 

Por falar em línguas...

 

O meu ponto de partida começou na língua portuguesa, mas até essa acaba por ser um símbolo colonizador. Em Moçambique, por exemplo, a língua portuguesa pode ser a oficial, mas entre as suas línguas nativas estão o macua, o tsonga e o sena (as mais comuns). E a leitura de livros africanos, em língua portuguesa, não deixam de introduzir nas suas obras a riqueza de outros vocabulários nativos.

 

Estas línguas nativas pertencem a uma família linguística (língua bantu) que abarca mais de 600 línguas, faladas por cerca de 300 milhões de pessoas (o português tem cerca de 280 milhões falantes). 

03
Set17

O evangelho segundo Jesus Cristo

Assim que o silêncio voltou à casa, é tempo de ler Saramago. Já havia lido, há muitos anos, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, mas sempre soube que era um livro para releituras. 

 

Para os pontos-chaves desta leitura, partilho o fantástico resumo da Tatiana. Este vídeo deveria ser conteúdo obrigatório para as metas curriculares de português, prévio à leitura da obra. Os seus apontamentos, o entusiasmo... quem não desejaria ler o livro, depois de ver este vídeo?

 

Recordo-me que uma das minhas primeiras grandes leituras foi o Novo Testamento, no 4º ano da catequese, por isso teria eu uns 10 anos. A minha memória diz-me que gostei muito, embora não me diga onde foi parar o exemplar.

 

Para quem está menos familiarizado com os textos religiosos do cristianismo, o Novo Testamento consiste num conjunto de textos que teriam sido escritos após a crucifixação, precisamente no advento do cristianismo. Muitos deles, narrativas de apóstolos, que incluem (poucos) episódios da vida e morte de Jesus de Nazaré.

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O paralelo entre o Jesus dos textos religiosos e o Jesus dos registos históricos sempre me fascinou. Esta ateia sempre gostou deste Jesus de Nazaré, talvez porque sempre me foi apresentado com um percursor da igualdade social.

 

Por isso, uma obra como O Evangelho Segundo Jesus Cristo, alinha-se perfeitamente com as minhas preferências pessoais: uma narrativa sobre um tema que me fascina, uma abordagem invulgar a um tema massificado e a belíssima escrita de José Saramago.

 

Encontrei o meu mojo.