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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

10
Set17

Grito negro - José Craveirinha

Grito negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
E fazes-me tua mina,
Patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão
Para te servir eternamente como força motriz
Mas eternamente não,
Patrão.
Eu sou carvão
E tenho que arder, sim
E queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão
Tenho que arder na exploração
Arder até às cinzas da maldição
Arder vivo como alcatrão, meu irmão
Até não ser mais a tua mina,
Patrão.
Eu sou carvão
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu serei o teu carvão, patrão!

 

José Craveirinha (1922-2003)

Moçambique

Outras leituras: A fábula de um país com racistas sem racismo

21
Mar17

Dia Mundial da Poesia #6

Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos

O gesto criador ser impedido

Nunca choraremos bastante quando vemos

Que quem ousa lutar é destruído

Por troças por insídias por venenos

E por outras maneiras que sabemos

Tão sábias tão subtis e tão peritas

Que nem podem sequer ser bem descritas

 

Obra Poética II, Livro Sexto, Sophia M. Breyner Andresen

21
Mar17

Dia Mundial da Poesia #2

henry-be-99471

Ver claro

Toda a poesia é luminosa, até

a mais obscura.

O leitor é que tem às vezes,

em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.

E o nevoeiro nunca deixa ver claro.

Se regressar

outra e outra vez

e outra vez

a essas sílabas acesas

ficará cego de tanta claridade.

Abençoado seja se lá chegar.

 

Os Sulcos da Sede, Eugénio de Andrade

21
Mar17

Dia Mundial da Poesia #1

1

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua

ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não

magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,

por isso, de deixar alguns sinais - um peso

nos olhos, no lugar da tua imagem, e

um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes

tivessem roubado o tacto. São estas as formas 

do amor, podia dizer-te; e acrescentar que

as coisas simples também podem ser

complicadas, quando nos damos conta da

diferença entre o sonho e a realidade. Porém,

é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que

os dias correm mais depressa, e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,

quando a tua voz me chama de dentro de

mim - e me faz responder-te uma coisa simples,

como dizer que a tua ausência me dói. 

 

06
Fev17

Grito negro

Eu sou carvão!

E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

 

José Craveirinha (1922-06/02/2003)
Moçambique