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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

22
Out16

A morte da mãe - Maria Isabel Barreno

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I - A autora sobre o livro

Tenho sempre dificuldade em falar dos livros que escrevi. Mais ainda de escrever sobre eles. Ou o livro é explícito ou não é. Adicionar explicações e propósitos pouco ou nada adiantará, penso. Uma outra pessoa sim, apresentará a sua própria leitura - com as leituras dos outros são os livros enriquecidos. Mas eu não consigo o suficiente distanciamento que me permita um olhar completamente novo sobre o que escrevi. Se o livro é explícito, se eu consegui trazer à claridade colectiva tudo o que pretendia exprimir, nada mais terei a dizer. Se falhei, se as palavras escritas permanecerem encerradas numa subjectividade que não soube comunicar-se, parece-me também que pouco poderei fazer: um livro acabado é um objecto já fechado em si mesmo, bom ou mau.

(o destaque a negrito é da minha responsabilidade)

 

II - O género literário e a leitura activa

Não direi que é um livro fácil. Lê-lo exige uma colaboração activa por parte de quem lê. Para alguns poderá parecer demasiado ambicioso: demasiados temas, dirão, demasiados quadros de referência a utilizar. Ou ainda, que há saltos de linguagem: da prosa poética ao texto de ensaio. O livro não é incluível num género literário: aí está o que, felizmente, me foi impossível fazer.

 

III - E no início foi a pergunta:

Ensinavam-me e eu aprendia:
"O homo faber; o homo sapiens; o homem é um animal racional; os homens descobriram o fogo; os homens da pré-história; o homem é um animal religioso; os patriarcas; deus é pai; os faraós; o homem é um animal social; os filósofos gregos; os imperadores romanos; as eternas aspirações do homem; os guerreiros, os cavaleiros, os soldados, os marinheiros; os descobridores, os aventureiros, o homem da renascença; o homem tem sede de conhecimento; os físicos, os matemáticos; os homens lutam pela sua liberdade; os homens e a sua angústia vivencial; os operários, os capitalistas; os homens fazem o progresso técnico; os homens do governo; a declaração dos direitos do homem; os homens da imprensa; os homens lutam pelo poder; a exploração do homem pelo homem; milhões de homens morreram na guerra; os homens de boa vontade; a arte é uma necessidade do homem; o homem face à natureza..."

Um dia perguntei:
- ONDE ESTÃO AS MULHERES?

Explicaram-me primeiro que as mulheres têm ficado quase sempre em casa, fazendo filhos e tricot; explicaram-me depois, com a grande paciência com que sempre fui tratada, que, quando se dizia homem, as palavras deviam ser vistas com maiúsculas, Homem, e se pretendia com isso significar "ser humano", e todas as importantes coisas com ele relacionadas.
- Mas porque ficaram as mulheres em casa? E porque desaparecem elas nessa sombra linguística? - perguntei várias vezes, sem que me dessem resposta.

 

IV - Nem Saramago se atreveu a tanto

Maria foi visitar sua prima Isabel. Nunca ninguém imaginou as congeminações secretas dessas duas mulheres. 

No entanto, João Baptista foi anunciar Cristo para o deserto - lugar bastante visitado, no tempo - e Cristo cresce na convicção de que é filho de pai celeste, e não de José, o carpinteiro. Quem lhe contou esses contos, entre papas e canções de embalar?

Maria disse:

- Estando as coisas como estão, nós as mulheres declaradas impuras e chão para qualquer semente paterna, e os homens infelizes esperando um salvador de seus males, eu declaro-me virgem mágica, progenitora de um filho divino. 

E Isabel concordou.

 

V - O sentido de humor

Como um grande número de homens igualmente pensativos mas com menores resultados, Freud, pensativo, coçava as partes genitais - as mãos discretamente metidas nos bolsos das calças - enquanto pensava.

 

VI - Muita filosofia económica e do trabalho

A parte da produção de vida que se passa no corpo da mulher é vista como "processo natural" - logo não analisável, não assimilável a um processo de trabalho, não retido como elemento construtor do económico. (...) Mas de tudo o que é humano só aquilo que é especificamente feminino é colocado do lado da "natureza". O impressionante aparelho teórico de Marx veio fechar mais uma porta sobre as mulheres: encerrando-as na esfera do "privado", economicamente irrelevante. 

 

Eu e o livro

 

Maria Isabel Barreno (1939-2016) foi vencedora de prémios literários como Prémio Fernando Namora, o Prémio P.E.N. Clube Português de Ficção e o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco. Até este ano, eu nunca tinha lido esta autora.

Desde que li As novas cartas portuguesas, tenho procurado incluir nas minhas leituras as três Marias: Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa. 

Achei o livro absolutamente brilhante, apesar de sentir que não é um livro fácil (como bem sabia a autora). A evolução dos seres humanos, numa perspectiva da filosofia do trabalho, que esta descreve é fascinante, especialmente na pré-história. Porém, confesso que andei perdida no séc.XIX (Marx, Engels).

Sei que é um livro a que voltarei, além de continuar a explorar a obra da autora.