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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

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Diário de Leituras

11
Jul18

Amor de Perdição,de Camilo Castelo Branco

Capturar (189).JPG

Desde que descobri que havia um Amor de Salvação, que estava determinada a lê-lo. Porém teria sempre de ser precedido de uma releitura de Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco

 

O meu objectivo era perceber como leria Amor de Perdição, como adulta, depois de ter sido obrigada a lê-lo na escola e ter apenas retido a expressão "de faca e alguidar", em relação ao seu autor e que este seria o expoente máximo do romantismo. 

 

A minha edição tinha três documentos prévios ao romance e que achei particularmente interessantes.

 

 

Primeiro, uma carta de Camilo, do tempo da primeira publicação (1861), quando preso na Cadeia da Relação e que é pura graxa a um ministro. Também Camilo foi preso "por amor" e como tal, nada como um romance a idealizar o carácter da personagem condenada, para granjear simpatia para a sua situação.

 

Depois, um prefácio à 5ª edição, em 1879, em que faz uma crítica jocosa da obra: 

Dizem, porém, que o Amor de Perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como indemnização, faz rir: tornou-se cómico pela seriedade antiga, pelo raposinho que lhe deixou o ranço das velhas histórias do Trancoso e do padre Teodoro de Almeida. E por isso mesmo se reimprime. O bom senso público relê isto, compara com aquilo, e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista as páginas que há dez anos aljofarava com lágrimas românticas.

 

Faz-me tristeza pensar eu que floresci nesta futilidade da novela quando as dores da alma podiam ser descritas sem grande desaire da gramática e da decência. Usava-se então a retórica de preferência ao calão. O escritor antepunha a frequência de Quintiliano à do Colete encarnado. A gente imaginava que os alcouces não abriam gabinetes de leitura e artes correlativas. Ai! quem me dera ter antes desabrochado hoje com os punhos arregaçados para espremer o pus de muitas escrófulas à face do leitor! Naquele tempo, enflorava-se a pústula; agora, a carne com vareja pendura-se na escápula e vende-se bem, porque muita gente não desgosta de se narcisar num espelho fiel.

 

Mas esperem... 

 

Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5.a edição do Amor de Perdição quase esgotada.

 

Finalmente, um prefácio à 2ª edição em que explica que é a história do seu tio paterno: Simão António Botelho.

 

A história

 

Tivesse sido escrito hoje, teriam acusado Camilo de plagiar o Romeu e Julieta: duas famílias que se odeiam, as jovens crias  apaixonadas (18 e 16 anos de idade), os amores negados, um familiar que morre, pais com sede de vingança, facilitadores da relação... está tudo cá. 

 

Eu não quero introduzir aqui spoillers, mas estamos no período literário do romantismo, em que o amor é a perdição, e Camilo Castelo Branco é o expoente máximo do romantismo. Percebem agora o faca e alguidar?  

 

Eu, leitora

 

Não posso dizer que adorei porque seria mentira. Na verdade, retirei mais prazer dos documentos iniciais e de uma secção auto biográfica sobre a prisão, que toda a história de Simão e Teresa que, apesar de tudo, gostei de ler. 

 

Gostei, acima de tudo de poder reler a obra e ver o autor por uma lente bastante diversa da que tinha, confesso. Ultrapassei o "autor chato" e reconheci o autor do seu período.

Avançarei para O Amor de Salvação, não me esquecendo que me recomendaram que não me esquecesse de ler A queda de um anjo. Fica ainda no meu radar a leitura de Memórias de um Cárcare. 

 

 

Como referi anteriormente, há um trecho que gostei particularmente e que publico infra. Contém spoillers, fica a advertência.

 

 

A verdade é algumas vezes o escolho de um romance. Na vida real, recebemo-la como ela sai dos encontrados casos, ou da lógica implacável das coisas; mas, na novela, custa-nos a sofrer que o autor, se inventa, não invente melhor; e, se copia, não minta por amor da arte.

Um romance que estriba na verdade o seu merecimento é frio, é impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente, sequer uma temporada, enquanto ele nos lembra, deste jogo de nora, cujos alcatruzes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela manivela do egoísmo.

A verdade! Se ela é feia, para que oferecê-la em painéis ao público!?

A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de ferro que o prendem ao barro donde saiu, ou pesam nele e o submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergi-lo, retratá-lo e pô-lo à venda!?

Os reparos são de quem tem o juízo no seu lugar; mas, pois que eu perdi o meu a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintá-la como ela é, feia e repugnante.

A desgraça afervora, ou quebranta o amor?

Isso é que eu submeto à decisão do leitor inteligente. Factos e não teses é que eu não trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e não explica as funções ópticas do aparelho visual.

Ao cabo de dezanove meses de cárcere, Simão Botelho almejava um raio de sol, uma lufada de ar não coada pelos ferros, o pavimento do céu, que o da abóboda do seu cubículo pesava-lhe sobre o peito.

Ânsia de viver era a sua; não era já a ânsia de amar.

Seis meses de sobressaltos diante da forca deviam distender-lhe as fibras do coração; e o coração para o amor quer-se forte e tenso, de uma certa rijeza, que se ganha com o bom sangue, com os anseios das esperanças, e com as alegrias que o enchem e reforçam para os reveses.

Caiu a forca pavorosa aos olhos de Simão; mas os pulsos ficaram em ferros, o pulmão ao ar mortal das cadeias, o espírito entanguido na glacial estupidez de umas paredes salitrosas, e dum pavimento que ressoa os derradeiros passos do último padecente, e dum tecto que filtra a morte a gotas de água.
que é o coração, o coração dos dezoito anos, o coração sem remorsos, o espírito anelante de glórias, ao cabo de dezoito meses de estagnação da vida?

O coração é a víscera, ferida de paralisia, a primeira que falece sufocada pelas rebeliões da alma que se identifica à natureza, e a quer, e se devora na ânsia dela, e se estorce nas agonias da amputação, para as quais a saudade da ventura extinta é um cautério em brasa; e o amor, que leva ao abismo pelo caminho da sonhada felicidade, não é sequer um refrigério.

Ao deslaçar da garganta a corda da justiça, Simão Botelho teve uma hora de desafogo, como que sentia o patíbulo lascar entre os seus braços, e então convidou o coração da mulher que o perdera a assistir às segundas núpcias da sua vida com a esperança.

Depois, a passo igual, a esperança fugia-lhe para as areias da Ásia, e o coração entumecia-se de fel, o amor afogava-se nele, morte inevitável, quando não há abertura por onde a esperança entre a luzir na escuridão íntima.

Esperança para Simão Botelho, qual?