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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

17
Nov16

História do Porto (vol.1) - Como nasce uma cidade

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Já tenho esta colecção há uns 6 anos. Provavelmente foi-me oferecida pelos meus pais porque foi distribuída com o Jornal de Notícias.

 

São 15 volumes com a história do Porto, editada pela QuidNovi e que tem como autores "um grupo heterogéneo de autores, de um modo geral ligados à vida académica". Cada volume parece encapsular um período da história da cidade mas também do país, como pude comprovar pela leitura do primeiro volume, pela historiadora Joana Sequeira.

 

Quinze volumes que não valorizei até perceber, pela sua leitura, o quanto desconhecia e o quando poderia ainda aprender. 

 

Leio a primeira página e descubro logo que, no lugar onde moro foram encontrados vestígios de ocupação humana que remontam ao período Acheulense (do Paolítico Inferior): 400 a 120 mil anos atrás.

Percebo ainda que, apesar de os centros históricos (pelas sucessivas construções) poderem não evidenciar vestígios materiais de ocupação, a toponímia das cidades ou lugares (nomeadamente em documentos medievais) podem dizer-nos muito sobre o que lá existiu: Antas, Arca, Arca Velha, Mamoa, Mamoa Pedrosa, Mamoa Furada, Pedra Pinta.

 

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Descobri ainda que existe uma casa, no Porto, que "em apenas três metros de profundidade detetaram-se vinte camadas arqueológicas, integrando ruínas arquitectónicas e espólios dos sécs. IV-III a.c. até à atualidade".  E que eu nunca visitei.

 

E ler não ficção em adulta tem estas vantagens: actualização de informação. Se são da mesma geração que eu, vou achar este trecho surpreendente:

E depois vieram os suevos. E com eles, os vândalos e os alanos. No Outono de 409, hordas de "bárbaros" transpuseram os Pirinéus e invadiram a Península Ibérica. Esta é a história que durante muito tempo se contou, mas não foi bem assim que as coisas se passaram. Não só não vieram em grandes hordas, como não estavam propriamente a invadir. O contingente de "bárbaros" nunca ultrapassou uns meros cinco por cento do total da população. E quanto a invadir, a verdade é que tinha sido o próprio general romano Gerôncio a chamá-los, na esperança de obter ajuda militar para defender a posição de um imperador usurpador, que ele mesmo proclamara na Hispânia e que dava pelo nome de Máximo.

 

Outro trecho que me fascinou sobre São Martinho de Dume e os dias da semana. Parece que o católico não gostava que se continuassem a associar os dias da semana ao nome de divindades romanas:

Não caiu a sua crítica em saco roto. Uma das mudanças culturais ocorridas e que prova o alcance da sua autoridade foi a aplicação dos termos litúrgicos aos dias da semana (segunda-feira, terça-feira,...), que só a língua portuguesa adoptou. Todas as outras línguas românicas conservam os designativos romanos (lunes, martes,... lundi, mardi). Original, no mínimo.

 

E isto é apenas uma amostra, do 1º de 15 volumes, de uma "colecçãozita de jornal". Sobre ela, não encontrarão dezenas de reviews no booktube, mas asseguro que merecia muito mais visibilidade.

 

O meu plano é combinar a leitura desta colecção com a "Portuguesas com História", tentando coincidir a cronologia. Fiz isso com o primeiro volume e foi muito interessante. 

 

Decididamente, encontrei o livro perfeito para combinar os meus projectos de leitura: ler mulheres, ler os nossos, não ficção. E nem precisei de sair da minha estante.