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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

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Diário de Leituras

17
Jun18

Racismo em Português - Joana Gorjão Henriques

O Racismo em Português, de Joana Gorjão Henriques, reúne o testemunho de mais de 100 entrevistas, que a autora conduziu em cinco ex-colónias portuguesas: Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Moçambique.

 

Uma secção do livro para cada país e cada um com os seus testemunhos, por pessoas que viveram as colonizações de formas diversas, geralmente associadas a dor.

 

Enfatizo o plural de “colonizações”, porque um dos aspectos que mais me surpreendeu nesta obra, foi o quanto desconhecia sobre as diferentes formas de colonização que se praticaram em diferentes países. Por exemplo, desconhecia por completo que Guiné foi administrada por Cabo Verde, enquanto Guiné de Cabo Verde (uma “colónia de uma colónia”).

 

Mais, oferece um vislumbre de como os efeitos dos colonialismos perduram na actualidade, seja nas questões raciais, no contínuo privilégio do branco (ou claro), na relações internacionais e até no desenvolvimento económico desses países. E acima de tudo, através de testemunhos na primeira pessoa (em que representa vários espectros da sociedade), o choque absoluto com o mito do bom colonizador.

 

O que foi para mim mais notável foi perceber o quanto desconhecia sobre as colonizações, chegando mesmo a necessitar de apreender um novo léxico, associado a estatutos jurídicos e sociológicos: assimilados, indígenas, colonizações, racismo, racismo institucionalizado. Senti, que acima de tudo, este livro era um ponto de partida para compreender melhor todos esses conceitos e as suas implicações.


“O racismo é um sistema económico com a colonização o é, mas quando se quer explorar alguém, tem de se construir a inferioridade de alguém, como os homens construíram a inferioridade das mulheres” - Lilian Thuram (escritor)



A jornalista Joana Gorjão Henriques, cujo trabalho tenho vindo a admirar no jornal Público, explica o seu interesses pelas questões raciais:

“cresci com alguns colegas negros na primária, um ou dois no liceu e nenhum na universidade”, terminando a sua introdução com uma perplexidade (que eu partilho): “como é possível que até hoje, nunca tenha existido um Museu da Escravatura em Portugal?”

 

Escravatura

 

Embora não seja possível chegar a números exactos, no que respeita ao número total de escravos, a comunidade científica estima que “entre 1501 e 1866, cerca de 12 milhões embarcaram de África para as Américas e 2 milhões não chegaram ao destino”.  

 

Neste livro, Joana Gorjão Henriques vai traçando as rotas da escravatura em cada um dos países, explorando os papéis de alguns interventores de relevo, como por exemplo a igreja.

 

 

Houve independência, mas não a descolonização das mentes” - Elias Isac, Director do Open Society em Angola).



O retrato das ex-colónias é de um racismo que sobrevive, talvez não de forma expressa, mas subtil e subliminar: embora se vejam todas as raças e nacionalidades nas elites, “nos subúrbios mais pobres, só existe um tipo de gente, os angolanos de raça negra” (Elias Isac), ou os empregados de lojas e bancos que são sempre mais claros ou os empregados que se dirigem sempre primeiro à pessoa branca, ou as chefias que são sempre brancas, mesmo quando vindo do exterior (“a angolana nunca será chefe”).

 

Na verdade, “depois da independência, os lugares administrativos continuaram nas mãos dos luso-angolanos porque tiveram conhecimento, dinheiro e emprego: detinham essa herança” (Patrício Batsikama)

 

O privilégio do branco é visível em qualquer parte do mundo e aqui também.” (Lucia Silveira)




O Bom Colonizador



Julgo que todos ouvimos a versão do bom colonizador (em oposição a outros países), mas a realidade de quem foi colonizado é bem diferente.

 

É inegável que as colónias foram territórios que alimentavam o comércio de escravos e depois disso, outros comércios, com mão de obra escrava, já que mesmo depois da escravatura, “continuava a existir trabalho quase escravo que incluía chicoteamentos em pelourinhos”.  

 

Como refere Dautarin da Costa (sociólogo), a abolição da escravatura “não foi tão higiénica como os livros apresentam”, com homens a serem levados para obras públicas (como estradas) e obrigados a trabalhar de graça.

 

E os testemunhos de algumas pessoas trazem uma realidade violenta para um passado ainda muito presente, como o de Teodora Inácia Gomes, que se “lembra de ver pessoas serem chicoteadas, a serem agarradas e de lhes baterem até sangrarem, por não pagarem o imposto da palhota.”

 

Além da violência, as colonizações tinham muitas outras faces, como a proibição de falar a língua local, de ter um nome completamente africano (“tinha de ter um Fernando ou um João - Fodé Mané), de aceder à educação. Estruturas sociais eram destruídas e tribos divididas (“tentar dividir e aproximar alguns para através disso manter o poder” - Mamadu Baldé)



Para reflectir:

 

“Mesmo nas artes, por exemplo, na literatura, o privilégio continua a ser dado aos angolanos brancos, e exemplo disso é o Prémio Camões” (Patrício Batsikama)

 

“Mulata vem de mula” (Lúcia Silveira)

 

O testemunho de um negro em Portugal, que partilha o sofrimento de estar sentado num autocarro e o lugar ao seu lado ser o último a ser ocupado.

 

Concluo que este foi, para mim, um livro essencial para compreender o nosso passado recente (nas ex-colónias) e até a realidade presente, não só pelo que me apresentou, mas nos caminhos que me apontou para futuras leituras. Foi, sem dúvida, o melhor livro de não-ficção que li no último ano.

 

Acredito, sinceramente, que todos que desejem compreender um pouco mais estas matérias, largamente beneficiarão com esta leitura.

 

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