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Diário de Leituras

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

"O regresso à cultura. Sim, autenticamente à cultura. Não se pode consumir muito se se fica tranquilamente sentado a ler livros."

Diário de Leituras

18
Jun18

Penny Vincenzi - Escândalo

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Intrigada pelas sugestões do booktuber Steve Donoghue, decidi adicionar mais título de uma autora desconhecida: Penny Vincenzi. 

 

O título foi escolhido de forma prosaica: era o único disponível na biblioteca municipal. 

 

Nos anos 80 e 90, um escândalo financeiro abalou a Grã-Bretanha, em que milhares de investidores foram levados à ruina, num mercado de seguros e resseguros - Lloyd´s of London. Além dos ricos e poderosos do país, pequenos investidores, foram levados a negócios ruinosos, perdendo todo o seu património e ficando responsáveis por dívidas futuras. 

Como devem ter percebido, rapidamente surge a associação de ideias, à luz da experiência portuguesa com os lesados do BES. 

 

O livro tem 680 páginas e começa com um suicídio, em Agosto de 1990. Todavia, a autora recua no tempo e vai obrigar-nos a ler mais de 400 para descobrir-mos quem foi. 

 

Não é o único suicídio e este não é um romance cor-de-rosa. No cerne da trama temos três núcleos familiares e mais umas duas dúzias de personagem, que confesso tive alguma dificuldade em distinguir. Diversas das personagens surgem como narradoras das suas histórias, pelo que as perspectivas são interessantes. 

 

Vamos acompanhando várias personagens na descoberta de estão presas a investimentos ruinosos, que as associam a prejuízos anuais que não conseguem cobrir, mesmo depois de vender todas as suas posses.

 

O impacto nas suas vidas, nas dos seus filhos, nas relações de amizade (e amor) que criam com outros lesados, são histórias de tragédias, mas também de sucessos.

 

Não é (como me avisaram) uma história de digestão rápida (embora tenha lido em 3 dias). O desenrolar da história é lento mas verosímil, no que é ver a vida virada do avesso, perder tudo, tentar lutar, perder a esperança, mudar de vida. Porém, a quantidade de relacionamentos extra-conjugais chega a ser desconcertante. 

 

No final, terminei sem saber se gostei muito ou pouco, mas sei que fiquei com curiosidade para ler um ou outro título da autora. 

17
Jun18

Racismo em Português - Joana Gorjão Henriques

O Racismo em Português, de Joana Gorjão Henriques, reúne o testemunho de mais de 100 entrevistas, que a autora conduziu em cinco ex-colónias portuguesas: Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Moçambique.

 

Uma secção do livro para cada país e cada um com os seus testemunhos, por pessoas que viveram as colonizações de formas diversas, geralmente associadas a dor.

 

Enfatizo o plural de “colonizações”, porque um dos aspectos que mais me surpreendeu nesta obra, foi o quanto desconhecia sobre as diferentes formas de colonização que se praticaram em diferentes países. Por exemplo, desconhecia por completo que Guiné foi administrada por Cabo Verde, enquanto Guiné de Cabo Verde (uma “colónia de uma colónia”).

 

Mais, oferece um vislumbre de como os efeitos dos colonialismos perduram na actualidade, seja nas questões raciais, no contínuo privilégio do branco (ou claro), na relações internacionais e até no desenvolvimento económico desses países. E acima de tudo, através de testemunhos na primeira pessoa (em que representa vários espectros da sociedade), o choque absoluto com o mito do bom colonizador.

 

O que foi para mim mais notável foi perceber o quanto desconhecia sobre as colonizações, chegando mesmo a necessitar de apreender um novo léxico, associado a estatutos jurídicos e sociológicos: assimilados, indígenas, colonizações, racismo, racismo institucionalizado. Senti, que acima de tudo, este livro era um ponto de partida para compreender melhor todos esses conceitos e as suas implicações.


“O racismo é um sistema económico com a colonização o é, mas quando se quer explorar alguém, tem de se construir a inferioridade de alguém, como os homens construíram a inferioridade das mulheres” - Lilian Thuram (escritor)



A jornalista Joana Gorjão Henriques, cujo trabalho tenho vindo a admirar no jornal Público, explica o seu interesses pelas questões raciais:

“cresci com alguns colegas negros na primária, um ou dois no liceu e nenhum na universidade”, terminando a sua introdução com uma perplexidade (que eu partilho): “como é possível que até hoje, nunca tenha existido um Museu da Escravatura em Portugal?”

 

Escravatura

 

Embora não seja possível chegar a números exactos, no que respeita ao número total de escravos, a comunidade científica estima que “entre 1501 e 1866, cerca de 12 milhões embarcaram de África para as Américas e 2 milhões não chegaram ao destino”.  

 

Neste livro, Joana Gorjão Henriques vai traçando as rotas da escravatura em cada um dos países, explorando os papéis de alguns interventores de relevo, como por exemplo a igreja.

 

 

17
Jun18

Lidos

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Agora, que já vos contei sobre o livro que "comi com os olhos", volto ao #readingwomenmonth, com algumas notas sobre os livros lidos.

Ou melhor, a dois dos três, porque necessito mais tempo para assentar ideias sobre o Racismo em Português, que excedeu as minhas expectativas, de uma forma incrivelmente positiva. 

 

Porém, o tema era difícil e isso fez com que as leituras seguintes fossem muito, mas muito leves. 

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Peguei no Pequeno Vigaristas da Gillian Flynn, por capricho e porque não resisto a ler tudo desta autora, que retrata sempre as mulheres nos antípodas da confiança, perfeição, estabilidade, honestidade, moralidade... E quando sofrem, nunca são as sofridas. 

 

Esta pequena novela (conto?), começa de forma absolutamente hilariante, termina à la Gillian Flynn, mas infelizmente o meio é pouco consistente. Ainda assim, é uma excelente leitura para "limpar o palato" e como são só umas 70 páginas, lê-se num ápice.  

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A propósito do Dia da Mulher, desafiei a G Floy Studio - Portugal [Facebook] a destacar autoras do seu catálogo. A autora destacada foi a autora Anne-Caroline Pandolfo que, entre outras obras, tem "uma maravilhosa biografia em BD de outra grande mulher livre e que deixou uma marca tremenda na literatura e história da século 20: Karen Blixen, a autora de África Minha ou A Festa de Babete!

 

Eu conhecia o filme África Minha, mas a minha ignorância era tanta, que desconhecia que a história era uma autobiografia. E depois de ler esta biografia em BD, fiquei absolutamente fascinada pela autora dinamarquesa Karen Blixen (que utilizou o pseudônimo de Isak Dinesen). 

 

A Leoa: Um retrato gráfico de Karen Blixen é o retrato de uma mulher que se viu perante os contrangimentos do seu tempo, nomeadamente aqueles que vedavam a educação às mulheres.

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É uma história sobre o poder transformador dos livros e do encorajamento dos adultos, apesar da pequena Karen Blixen ter perdido o pai aos 11 anos, quando este se suicidou. 

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A obra narra toda a história de vida da autora, que teve tanto de sucesso como de tragédia. Talvez a maior tragédia tenha sido a forma como morreu. 

Porém não posso deixar de notar que a colonialista Karen Blixen é aqui retratada de forma muito benévola, que é algo que gosto pouco de ver retratado, seja onde for.

31
Mai18

Lidos em 2018

Janeiro

1. O Moinho à Beira do rio - George Eliot, pseud. (Mary Ann Evans) E

2. Um estudo em vermelho - Arthur Conan Doyle  E

3. A conspiração - Dan Brown E

4. The Governess Affair - Courtney Milan K

5. Sarah Waters, Os hóspedes  B

6. Texas Bride,  Joan Johnston   E

7. A escrava Isaura - Bernardo Guimarães W

 

 

Fevereiro

8. Groom by Arrangement, by Susanne McCarthy   E

9. Courting Cathie, Helen Shelton   E

10. His Sheltering Arms, Kristi Gold   E

11. Segredos de um final feliz, Lucy Dillon B

12. O signo dos quatro, Sir Arthur Conan Doyle   E

13. Leslie Jamison, The Empathy Exams: Essays  E

14. O conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas  

15.  Breaking Good,  Madeline Ash  K

 

Março

16. Marquesa de Alorna, Maria João Lopo de Carvalho E 

17. A vida secreta das abelhas - Sue Monk Kidd E 

18. O Mistério dos Mistérios, Clara Pinto Correia E 

19. Bom sono, boa vida, Teresa Paiva  B

 

Abril

20. Páginas do livro do desassossego, Fernando Pessoa   E 

21. Love Restored,  Carrie Ann Ryan K 

22. Laços de Família, Marilynne Robinson  B

23.  O Canto de Aquiles, Madeline Miller  B

24. Olha-me nos olhos, John Elder Robinson  B

 

Maio

25. Cartas a um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke  E 

26. Esse Cabelo, Djaimilia Pereira de Almeida  B

27. Sex Object, Jessica Valenti [Audiobook] S

28. I’ll be gone in the dark - Michele McNamara [Audiobook] S

29. Toda a Mafalda, Quino  B  

30. A volta ao mundo em 80 dias, de Júlio Verne  B 

 

Junho  [#readingwomenmonth]

31. American Fire, Monica Hesse [Audiobook] S

32. Racismo em Português - O lado esquecido do colonialismo, Joana Gorjão Henriques  B 

33. Pequenos vigaristas, Gillian Flynn   B  

34. A Leoa: Um Retrato Gráfico de Karen Blixen, de Anne-Caroline Pandolfo e Terkel Risbjerg   B  

35. Frida,  Sébastien Pérez e Benjamin Lacombe  B 

 

 

Os miseráveis, Victor Hugo [ a ler]

 

 

CONTOS

O pelicano, Edith Warton E 

A mãe, Natália Ginzburg E

Um bom homem é difícil de encontrar, Flannery O´Connor E

Obras, Mary Lydon E

Davam grandes passeios aos domingos, José Régio E 

E aos costumes disse nada, David Mourão-Ferreira  E 

Estação morta, Maria Ondina Braga E 

Fotos de gatinhos, por favor (conto), Naomi Kritzer Revista Bang, 05/2018 

 

 

Leituras suspensas

O erro de Descartes, António Damásio  

Pensar, Depressa e Devagar, Daniel Kahneman  

 

Desisti

A pirata - Uma história aventurosa de Mary Read, pirata das Caraíbas, de Luísa Costa Gomes

Barão de Lavos, de Abel Botelho 

 

 

EEstante

B - Biblioteca

K - Kindle

S - Scribd

 

Actualizado em 29.05.2018

29
Mai18

A volta ao mundo em 80 dias, de Júlio Verne

Tinha planeado associar-me ao Clube dos Clássicos Vivos, de Maio/Junho, para ler o A volta ao mundo em 80 dias, de Júlio Verne.

Curiosamente, um dos autores que tinha planeado ler este ano, mas não era um dos livros que possuisse na estante. Porém, nada que a minha biblioteca municipal não resolva.

Comecei pelas 21h e às 3h estava a terminar. Maldita insónia.

 

Ainda estava a começar e já estava a adorar a experiência, por não conseguir libertar-me da imagem que tinha d Phileas Fogg:

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Mas pergunto-me se a leitura nocturna não ficou comprometida, porque não me recordo de nenhuma viagem em balão de ar quente, algo que ilustra muitas das capas da obra. Talvez tenha dormido durante essa parte da viagem. 

 

Actualizado: perguntei no grupo sobre a viagem de balão. Afinal não existe, embora haja uma menção (isso recordo-me) que seria óptimo se existisse, para atravessar o Atlântico. 

Agora pergunto-me: os editores e/ou ilustradores não leram a obra?

 

A história faz parte da cultura geral: Phileas Fogg, um cavalheiro britânico muito fleumático e rico, decide aceitar uma aposta em como consegue dar a volta ao mundo em 80 dias, como previa uma notícia do seu jornal. 

 

De Londres ao Suez, comboio e navio: 7 dias. Do Suez a Bombaim, navio: 13 dias. De Bombaim a Calcutá, comboio: 3 dias. De Calcutá a Hong Kong, navio: 13 dias. De Hong Kong a Yokohama (Japão), navio: 6 dias. Para São Francisco, navio: 22 dias. Até Nova Iorque, comboio: 7 dias. De Nova Iorque a Londres, navio e comboio: 9 dias. Total? 80 dias e uma volta ao mundo. 

 

O mundo está mais pequeno, porque o avião Concorde era capaz de dar uma volta ao mundo em 32 horas. Porém, A volta ao Mundo em 80 dias foi escrito em 1872 e por isso imaginem o fascínio que não deve ter sido esta hipótese e as descrições de outras terras e culturas.

 

Eu confesso que me aborreci com algumas descrições, claramente fruto de viver num mundo muito mais conhecido do que aquele que Júlio Verne partilhou. 

 

Ainda assim, uma leitura divertida e um final muito inteligente. 

 

Aproveito para ligar a um artigo muito interessante do Guardian, que por coincidência lia ontem e que se referia a uma “depressing children’s literary landscape”, que vinha substituindo os livros de aventuras.